Vida in box! Sua vida pode ser um sonho!
- nataligarcia68
- 15 de dez. de 2021
- 7 min de leitura
Atualizado: 11 de jan. de 2022
A Vida in box é uma empresa especializada em gerenciar experiências e criar momentos que são como sonhos para seus clientes! Para ela, a vida e suas memórias são marcadas por um conjunto de momentos, mas eles são passageiros. A Vida in box traz para seus clientes um portfólio completo de produtos que emulam momentos vivenciados ou que nossos clientes gostariam de viver. A empresa acredita que a vida pode ser um sonho! Em seu catálogo há seis serviços/produtos disponíveis:


Realidades oníricas: um óculos de realidade virtual pelo qual você poderá reviver e manipular aquele seu sonho MUITO bom;
Perfume que resgata memórias: perfumes de memórias que permitem você sentir a verdadeira fragrância da vida, com notas de alegrias, tristezas, emoções, descontentamento, euforia, etc.
Projetor que cria holograma: Em duas versões, você pode reviver momentos com seus entes queridos novamente, como ter sua mãe naquela confraternização de família. Em uma outra versão você pode recriar imagens de seus filhos pequenos, aproveitando aquele tempo que não pode não pode estar com eles.
Leve a natureza com você para qualquer lugar: Na cidade fica difícil encontrarmos espaços que nos propiciem relaxamento e contato com a natureza, por isso a empresa oferece um casaco que emula uma experiência de integração completa com a natureza.
Ar condicionado que traz o ar natural: Já imaginou sentir a brisa do mar na sua sala? Ou poder escolher sentir qual a melhor sensação do clima natural na sua casa ou trabalho? Esse ar condicionado traz o poder dessa escolha na sua mão, ele conta com 4 sensações especiais: brisa do mar, brisa de cachoeira, ventos do interior, ventos de janela em viagem.
Óculos de realidade aumentada que transforma paisagens: E se pudéssemos nos cercar de beleza e ressignificar paisagens degradadas? Este óculos propõe esta experiência de transformar o mundo ao nosso redor para que tenhamos melhores experiências.
O que acharam dos produtos? Vocês comprariam algum destes produtos? Por que?
O que esses produtos te fizeram sentir?
As questões são importantes pois a Vida in box é parte de um experimento proposto com o intuito de provocar reflexões sobre a crise de contemplação e o quanto a tecnologia é ao mesmo tempo agente e artefato nesta dinâmica que envolve o comportamento humano.
Para provocar essa reflexão o grupo propôs uma série de protótipos que pudessem chamar a atenção das pessoas com relação ao seu entorno. Esses protótipos foram apresentados, propositalmente, como parte de um negócio para indicar a viabilidade desses produtos/serviços e, consequentemente, dilemas éticos sobre a possibilidade de experienciar o mundo através desses artefatos.
A empresa foi apresentada para um grupo de pessoas que puderam propor novos produtos/serviços para o seu catálogo, descrita com o propósito de propiciar às pessoas a oportunidade de viver em contemplação, deixando de lado a preocupação com os registros como única forma de compartilhar, reviver e eternizar suas memórias.
A experiência de fazer parte desse negócio seguindo o conceito dos produtos mostrados previamente gerou reações distintas. Cada um deles percebeu a situação de modo distinto: um é mais otimista com a evolução tecnológica, um segundo, também otimista, vê a situação como uma boa oportunidade de negócio e prospecta ampliações para o negócio, já um terceiro se apresenta desconfortável, e mesmo trabalhando com tecnologia se vê temeroso pela proposta e possíveis impactos da empresa. Abaixo apresentamos comentários dos participantes sobre os produtos:
“Acho legal a ideia de resgatar sonhos ou momentos importantes da vida. Penso ser legal a ideia de rememorar sonhos ou momentos felizes” (Participante 1).
“Liguei com as minhas experiências com os meus clientes, pois a empresa (fictícia) pode proporcionar insights” para novas experiências que podem ser monetizadas” (Participante 2).
“Eu gosto do novo, tecnologia. Mas, os produtos me deixaram apavorados. Não gostei de absolutamente nenhum produto. Estou desconfortável” ( Participante 3).
Ao longo do processo de criação de novos produtos para Vida in box foi possível notar que os participantes buscavam em suas ideias sanar o desconforto que os protótipos iniciais haviam gerado. Eles buscaram aplicar a tecnologia para causas com ganho social ou que trouxessem benefícios sem tamanho desconforto. Por exemplo, um deles propôs uma realidade aumentada aplicada para gerar acessibilidade, que seria uma plataforma que integrasse experiências entre idosos e jovens, como uma escalada em que o idoso pudesse estar virtualmente no local que para ele seria inacessível, o serviço poderia ser fornecido por uma assinatura, o idoso teria acesso ao uso de um computador quântico para pessoas comuns.
Ao ser revelado o propósito da experimentação, todos refletiram e expressaram preocupação com o comportamento humano e os dilemas éticos diante das tecnologias. Todos percebiam a situação de maneira polarizada, em que poderiam ser compreendidas implicações positivas e negativas, sempre pensando que se a proposta fosse factível seria necessário levar em consideração o comportamento humano.
O processo de experimentação gerou provocações ricas nos participantes e também nos designers através do processo reflexivo.
Um dos participantes sugere não haver uma crise de contemplação, mas sim uma crise do exibicionismo, em que as pessoas buscavam publicizar suas vidas e por causa disso picotam a contemplação. Outro teve a sensação que a empresa só traz momentos vividos e que estes nunca seriam como o momento original, sendo assim estaríamos em crise ao não viver novos momentos. O terceiro participante afirma que os produtos são como “muletas”, e se preocupa com a possibilidade de pessoas escolherem viver uma ilusão frente aos problemas sociais.
De modo geral, os participantes refletiram que contemplar significa viver o momento com todos os sentidos, viver experiências reais sem fragmentá-las pelo excesso de registro para compartilhamento. Ainda provocaram os designers ao dizer que a participação pode significar mais do que contemplação, já que contemplar é ter uma participação ativa no momento vivido.
Ao final, a empresa saiu com média de duas e meia estrelas de avaliação, de uma pontuação de zero a cinco.
Considerações sobre o processo
Quando fomos provocados a pensar em uma crise iniciamos o debate com a concentração de poder tecnológico e o alto compartilhamento de informações pessoais. A rede social Instagram passou a ser o foco do nosso debate e passou a situar alguns de nossos primeiros experimentos sobre o tema, que chamamos posteriormente de laboratório.
Pesquisar sobre as redes sociais provocou o grupo e causou desconforto desde os primeiros encontros, isto porque, todos nós compartilhamos momentos de nossas vidas, informações e histórias, mas explicitar essa exposição na internet gera um grande dilema. Estamos dando autorização para que essas grandes empresas coletem nossos dados em troca de serviços que gostamos e precisamos, em contraponto, lidamos com a perversidade que perpassa muitas vezes a nossa relação com essas tecnologias, como as bolhas de sentido que filtram nosso conhecimento e aceitar que fazemos parte desse negócio que liquida todos os demais para permanecer no poder; contribuímos para o monopólio.
A partir desse laboratório, o grupo passou a questionar essas experiências, a questionar como elas eram mostradas pela rede social. Elas eram registros de momentos reais ou apenas produção de conteúdo compartilhável: instagramável? O que estava oculto no Instagram? Que interpretações essas publicações poderiam gerar?
Frente a esse tipo de relação, chegamos à ideia de que estávamos lidando com uma crise da contemplação, um dos membros do grupo trouxe de uma de suas leituras um fragmento sobre o tema, em que segundo Foucault a contemplação é como que a sensação posta em ação sem uma utilidade, apenas com o fim de acessar uma verdade em si mesma (na sensação) que leva a um contentamento, um certo tipo de gozo.
Em seguida inúmeras questões sobre a crise emergiram: O que contemplamos? O quanto contemplamos experiências reais? O quanto a nossa contemplação está direcionada a um consumo de algo que é ilusório? No Instagram consumimos mídias que acabam produzindo um mundo ilusório e distorcido. Ficamos anestesiados, em fuga do real, nos distanciando de uma contemplação que de fato nos permita estar no mundo.
Após o laboratório, o grupo seguiu trocando mensagens e ideias por meio do Whatsapp e pela plataforma online Miro, após algumas referências de filmes como Vanilla Sky (2001) e Quero ser John Malkovich (1999), notícias diversas e artistas como Dominic Wilcox (http://dominicwilcox.com/?page_id=3027) começamos a imaginar e criar protótipos provocativos e especulativos sobre a crise de contemplação, todos tinham em mente a ideia de trabalhar com um discurso irônico e emular vivências/sonhos, ou seja, pensar em produtos inspirados na possibilidade de reconstruir um sistema de forma que o resultado seja bastante semelhante ao original. Eles seriam os produtos oferecidos pela empresa Vida in box no workshop de cocriação.
O grupo optou por não desenvolver a experiência tendo como base apenas um protótipo. Os múltiplos protótipos elaborados pelos membros da equipe se mostraram interessantes pelas diferentes perspectivas e possibilidades de explorar o tema, sendo assim, a proposta voltou-se para inserir os participantes como também projetistas dessas especulações.
O processo de cocriação permite que os participantes interajam, exponham ideias ou até mesmo discordem ao longo do workshop, também proporciona que eles explicitem subjetividades e criem coisas que poderam gerar um impacto mais próximo deles já que as proposições que emergem do processo dialogam com as experiências prévias dos projetistas... A figura abaixo auxilia na compreensão de alguns momentos que marcaram nosso processo de experimentação sobre a crise da contemplação:

Ao final do workshop provocamos e fomos provocados pela experiência, pois nos fez refletir sobre as nossas escolhas, sobre as nossas ações e sobre o reflexo do nosso comportamento, que muitas vezes segue a manada, mas que ainda mais agora merece nossa consciência e reflexão. Propusemos uma empresa com produtos intencionalmente ambíguos, interessantes e ao mesmo tempo complexos ao possibilitarem experiências por meio de tecnologias que proporcionam por outro lado uma certa fuga do real.

Ainda ficamos com a questão sobre o quanto estamos permitindo esse consumo de ilusões? O quanto estamos consumindo esses fragmentos da realidade enquanto poderíamos estar vivendo o mundo em toda a sua complexidade? Todavia, chegamos às considerações finais desse processo compreendendo que a crise da contemplação se instaura sobre um dilema, em que as tecnologias são parte das relações humanas, mas que ainda precisamos pensar outras maneiras de rearticular essas interações de modo que possamos caminhar por uma diversidade maior de experiências, e não apenas restritos àquelas que pré-configuram nossas experiências gerando sonhos que não passam de meras ilusões.
Grupo: Tássia, Samuel, Lívia, Veridiana e Natalí
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