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Ciclo - Trabalho e Escola

Atualizado: 11 de jan. de 2022

Jornada trabalho Experimentação em Design Estratégico

Começamos nossa jornada no dia 30/09 com uma provocação acerca do Antropoceno e a COVID-19: “O que nos incomoda?” “Sobre o que queremos ir mais a fundo dentro deste incômodo?”. Posto isso, o grupo iniciou um debate sobre consciência, sobre bolhas sociais e como isso está relacionado com os diferentes níveis de consciência. Constatamos que esse tema era infinito e complexo, e que precisávamos dar um recorte, escolher um assunto sob o qual gostaríamos de refletir e gerar provocações.

Retomamos a temática da COVID-19 e seus impactos, e refletimos sobre como isso ainda reverberará no futuro. Assim, migramos para a área da educação e, nisso, chegamos na temática da escola, com foco no fato de “não ter escola” durante o período da pandemia e qual o impacto disso na vida das pessoas, principalmente nas comunidades mais vulneráveis. Discutimos sobre o impacto da escola em uma comunidade, na vida das crianças e suas famílias, que vai além do ensinar um conteúdo pedagógico. A escola, muitas vezes, é o local que a criança come, socializa, proporciona um ambiente seguro, um lugar em que a família confia e tem disponível para deixar seus filhos e trabalhar ou realizar suas tarefas domésticas.

Diante disso, resolvemos fazer um recorte ainda mais profundo e prático, questionando-nos: “Qual foi o impacto causado na Vila Planetário, em Porto Alegre, com o fechamento das escolas durante a pandemia?”. Para isso, fizemos algumas pesquisas sobre a Vila Planetário. Uma integrante do grupo que faz parte de uma ONG que atua na comunidade, nos trouxe algumas informações sobre a Vila, com fins de contextualização sobre a situação, como o censo da comunidade, fotos do ambiente e as escolas que as crianças da comunidade frequentam. Contudo, para conhecer a comunidade eleita para uma pesquisa mais profunda, o grupo optou por ir à campo para algumas entrevistas.


Vídeo da Vila Planetário

A ida à campo aconteceu no dia 20/10, onde o grupo fez entrevistas com 4 pessoas da E.E.E. Fundamental Luciana de Abreu, que atende um grande número de crianças da Vila.

Depois, nos dirigimos para a Vila Planetário, onde entrevistamos algumas crianças e uma mãe. Não fomos com perguntas muito prontas, a ideia era mais escutar como foi ficar sem escola durante aquele período, do que sentiam falta e quais os problemas que identificavam.

Nessa experiência, pudemos perceber que esse processo de migração para o ensino online foi desgastante, frustrante, cansativo e pouco produtivo, tanto para os professores quantos para as crianças e os pais. Muitos alunos não tinham acesso às aulas (não tinham equipamento, internet ou conhecimento sobre a plataforma utilizada para assistir às aulas). A falta de interação entre todos foi extremamente prejudicial, além de um processo bastante solitário para os alunos e professores. Muitas famílias se desestruturam, crianças que deveriam estar nas escolas, precisaram ficar em casa cuidando de seus irmãos mais novos, enquanto os pais trabalhavam (aqueles que conseguiram manter seus empregos). Muitos pais não conseguiam apoiar seus filhos, por não terem tempo, por não terem conhecimento, por não entenderem a importância de apoiar a criança. Para todos, foi um período de muitas dificuldades, desafios e desmotivação.

Na semana seguinte, expusemos a jornada que tínhamos percorrido para a turma. Fomos provocados a pensar sobre o que escutamos na Vila e como isso poderia impactar no futuro. Quais as consequências na vida das crianças ou dos pais, principalmente? Trazendo a temática de Estudos de Futuros e nos desafiando a refletir sobre o tema, o colega Felipe nos apresentou uma ferramenta para começarmos a navegar por esses mares, denominada “Inovação Combinatória”. Para isso, fomos selecionando falas/frases que nos chamaram a atenção ao longo da experiência e observações que fizemos ao longo da jornada também e, entre elas, fomos elegendo aquelas que julgamos mais relevantes. Nisso, vimos que um dos maiores desafios é o fato dos pais não terem onde deixar suas crianças enquanto trabalham, e como continuar educando seus filhos nessa situação.

Inicialmente, pensamos que um artefato de “pais virtuais” poderia ser interessante nesse contexto. Contudo, ao passo que fomos avançando na discussão sobre esse artefato, constatamos que esse caminho já estava sendo trilhado atualmente, e que o acesso a essas informações muito provavelmente chegaria às classes mais abastadas primeiramente, desviando o foco do nosso trabalho. Dessa forma, voltamos a nos questionar como ficam as famílias mais pobres nesse contexto, como ficam as famílias que moram na Vila Planetário?

Nesse sentido, começamos a projetar o futuro em cenários onde a tecnologia realmente prevalece e como seria isso para as diferentes classes sociais. Nessa projetação de cenários, pensamos que o toque, a troca física e os trabalhos manuais teriam mais valor no futuro, principalmente para as classes mais altas, por conta do domínio tecnológico em diversos outros campos. Então, no futuro que projetamos, as classes mais abastadas iriam querer que seus filhos frequentassem escolas com professores reais, que tivessem atividades de interação física, e que os trabalhos domésticos seguiriam sendo feitos por pessoas, e não por máquinas. Em um mundo dominado pela Inteligência Artificial, o toque e as interações humanas seriam mais valorizados e caros, o que, no nosso entendimento, faria com que determinados empregos de hoje tivessem uma procura maior no futuro.

Já para a população mais vulnerável, com o escalonamento e consequentemente barateamento da tecnologia, haveria uma predominância da Inteligência Artificial, inclusive na educação. Por ser mais barata e escalável, no futuro projetado essa seria a forma de educação das crianças de classe mais pobre. Assim, discutimos algumas projeções de cenário de como seria a educação e a questão dos pais com seus filhos daqui 30 anos. Nessa linha, fomos nos aproximando do nosso protótipo, buscando provocar uma reflexão sobre o futuro, principalmente nas famílias de classes mais baixas.

Nossa projetação imagina um futuro ainda mais desigual, com mundos e realidades muito diferentes. Onde os ricos percebem que a inteligência artificial não supre muitas de suas necessidades humanas e os pobres, com acesso barato a ela, a veem como única alternativa para várias de suas questões. Com isso em mente, idealizamos um protótipo em que são oferecidas vagas de emprego em casas de família mais abastadas e, além do salário, os mesmos garantem bolsas de estudos em uma escola baseada em inteligência artificial para os filhos de seus empregados. Uma escola programada, inclusive, para que seu algoritmo continue educando essas crianças para serem trabalhadores para as classes mais abastadas. Assim, perpetuando uma lógica colonialista e de exploração que vêm acontecendo há séculos, mas agora com a roupagem da tecnologia.

Partindo desse cenário, o protótipo foi materializado no formato de um vídeo que "vende" a ideia de vaga de emprego junto com a garantia de bolsas de estudo e um futuro melhor. Da seguinte maneira:

"Empresa Ciclo - Trabalho e Escola. A Ciclo foi fundada na Finlândia por Charlie Visser, homem que sempre valorizou os trabalhos manuais dos empregados que teve em suas propriedades. Por conta disso, ele decidiu unir essa sua admiração com a paixão de sua filha Aila, por educação e tecnologia, e fundar a Ciclo, empresa que garante emprego e educação para todas as gerações de uma família. A proposta baseia-se na ideia de que em um mundo em que as máquinas estão substituindo muitos empregos, as atividades manuais são uma ótima alternativa para a garantia de um futuro melhor. Na Ciclo, são oferecidas vagas de empregos "manuais/humanos", que vão de jardinagem a limpeza doméstica, todas em casa de famílias que valorizam bons empregados. Junto com o emprego, a empresa oferece bolsas de estudos para os filhos dos interessados nas vagas em uma escola virtual inovadora, administrada e com aulas ministradas por Inteligência Artificial. Cada residência que oferece uma vaga de emprego pela Ciclo prepara um espaço de ensino para que os filhos de seus empregados estudem durante o dia enquanto os pais trabalham. Ao concluírem seus estudos, as crianças possuem a garantia de emprego na mesma casa de família em que os pais trabalham, fechando um ciclo de trabalho e escola."



Antes de seguirmos diretamente para a nossa situação de projeto, apresentamos o artefato para pessoas próximas a nós, que não eram o nosso público alvo. As impressões coletadas por esse público, majoritariamente mais instruído, com educação superior e com condições econômicas enquadradas na classe média, foram de que a proposta tinha um teor de exploração velado em seu discurso tecnológico e de assistência. As pessoas também perceberam uma certa estranheza na forma como a apresentadora do vídeo, que chamamos de “Daiane Macedo” falava, criando uma certa dúvida: ela é real? A resposta, não. As pessoas não são reais e os áudios do vídeo foram feitos utilizando uma tecnologia de deepfake, com exceção da dublagem em português do fundador da Ciclo, “Charlie Visser”, feita por um dublador profissional.

Para as pessoas que não eram o nosso público alvo, o artefato foi interpretado como uma alusão a exploração das pessoas gerando revolta e um certo teor de repúdio.

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A continuidade do projeto se deu na criação das redes sociais dessa empresa e na divulgação do vídeo principal, a fim de expor a proposta para o público que desejávamos atingir. Nas redes sociais não conseguimos atingir o público da forma como tínhamos planejado, por meio de postagens e anúncios patrocinados. Não tendo retornos significativos, optamos por uma estratégia mais direta, onde direcionamos uma mensagem às pessoas, compartilhando o vídeo e solicitando suas impressões.


Além das redes sociais, optamos por voltar ao campo e apresentar o vídeo pessoalmente para os moradores da Vila Planetário, ver e registrar suas reações. O objetivo era captar as reações, as expressões e os sentimentos causados pelo artefato, observar se a proposta pareceria interessante para eles ou não. Assim, apresentamos o vídeo para 4 pessoas com perfis semelhantes, moradores da Vila Planetário, sendo duas mulheres e um homem sem o ensino fundamental completo, e uma mulher com ensino médio completo.

Procuramos não dar muita informação. Explicamos que era um vídeo especulativo, de um futuro daqui a 30 anos, sobre uma vaga de emprego e que gostaríamos de escutar a opinião deles sobre essa proposta. A reação de todos após ver o vídeo foi positiva, acharam uma boa proposta, principalmente pela questão de ter seus filhos por perto enquanto trabalham e pelo fato do filho ter um emprego garantido depois. Contudo, quando questionados um pouco sobre a proposta, uma mulher reviu sua posição e disse que queria “desdizer” o que falou, que não gostaria que seu filho tivesse aquele tipo de educação, pois acredita que a socialização é necessária para seu desenvolvimento, assim como o poder de escolha sobre seu futuro. A mulher que falou isso foi a que concluiu o ensino médio.

Além dessa visita à campo, enviamos o vídeo, por WhatsApp, para outras pessoas que têm esse perfil, classe econômica baixa e baixa escolaridade. Nessa dinâmica tivemos três reações que também foram positivas em relação à proposta, e apenas uma pessoa apontando um desconforto em relação a sensação de um modelo de escravidão.

Tal fato, nos mostrou que há uma grande diferença de percepção entre as pessoas de diferentes classes sociais e escolaridade. Ficou evidente que existe um abismo de percepção entre a situação em que especulamos e as percepções de pessoas de classe média e classe baixa. A possibilidade de escolha e crítica é um privilégio muito distante para quem não teve grandes oportunidades de vida, uma possibilidade de garantia de sobrevivência parece ser um luxo atraente e utópico para quem não tem muita oportunidade de trabalho e educação.

O papel do artefato durante essa especulação, foi de provocar questionamentos e reflexões em relação ao futuro que escolhemos viver nas decisões do presente, embora, muitas vezes, as opções de escolha para esse futuro sejam muito mais limitadas para algumas pessoas.

Nesse futuro, onde a inteligência virtual pode ser usada cada vez mais para manipular e utilizar as pessoas para continuar alimentando um sistema capitalista que precisa de uma mão de obra barata e mais educada, o artefato nos mostra um cenário assustador. Um cenário que reproduz um contexto de manipulação e exploração com a roupagem de algo bom, usando agora a inteligência artificial para isso.


Áudio compilando as primeira percepções dos entrevistados:


Durante a pesquisa, percebemos que apenas assistir ao vídeo faz as pessoas comprarem rapidamente a ideia, sendo a tecnologia e a oportunidade fatores que atraem o interesse da pessoa sem nem questionar muito o que de fato existe por trás daquela proposta. Somente quando apresentados alguns elementos para questionar que, em alguns, a consciência e criticidade aparecem.

O vídeo e sua “compra” imediata, refletem muito como as fake news trabalham, oferecendo conteúdo e informações que as pessoas tomam como verdadeiras, e de acordo com a intenção de venda, atraente. E assim, se deixam levar e manipular.

A experimentação mexeu muito conosco, pois escancara como as classes com menos estudos e oportunidades são mais manipuláveis, enxergando nessa proposta tentadora (em um primeiro momento) a solução de suas vidas, enquanto outros a enxergam como o fim de sua liberdade, o que mostra uma tendência para continuar repetindo um padrão que já se repete por séculos, um ciclo.


Áudio compilando reflexões:


A pergunta que ficou para nós foi: será que é possível mudar o futuro dessas pessoas? Acreditamos que sim, mas para que isso seja possível, precisamos apresentar outras possibilidades e permitir que essas pessoas tenham o direito de escolha no presente.


Ebook com mais informações


Autores: Caroline Tomaz Barbosa; Felipe Morais Menezes; Giulia Locatelli e Silva; Katsutoshi Rech Fukuoka; Victoria Dani Müller.


Professores: Dra. Debora Barauna; Dr. Guilherme Englert Corrêa Meyer.


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