Crise na Comunicação
- fernandasky6
- 16 de dez. de 2021
- 4 min de leitura
Alunas: Cátia Picolo, Clarissa Coelho Fernanda Sklovsky e Lara Luft
A partir do primeiro dia de trabalho com o projeto surgiram diversas ideias sobre os vários tipos de crise no cenário atual do Antropoceno. Após discussões em grupo, optamos por explorar a crise na Comunicação. Enfocamos questões relacionadas aos tipos de comunicação influenciadas pelo acelerado avanço no uso de dispositivos tecnológicos e pela percepção de ganho de tempo. A principal impressão do grupo, e que motivou a escolha do tema, foi sobre a noção da falta de tempo para uma comunicação adequada e saudável. Sentimos que o dilema contemporâneo sobre o volume e a velocidade da comunicação versus sua qualidade está gerando uma série de problemas e reflexos.
A nossa experimentação especulativa teve início a partir de um insight gerado pelo relato da comunicação entre pais e filhos, na mesma casa, por meio do dispositivo Alexa. Partimos então para uma pesquisa mais aprofundada sobre a etimologia das palavras “crise” e “comunicação”. "Crise" vem do Latim "crisis" e significa “momento decisivo”, mas também se origina do Grego "krisis": “decisão”. Nesta mesma pesquisa descobrimos que “a palavra crise chegou ao português no século XVIII, a princípio no vocabulário da medicina, para designar o momento na evolução de uma doença em que ela se define entre o agravamento – e a morte – ou – ou a cura – e a vida”. (https://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/crise-perigo-oportunidade-e-8230-papo-furado/)
Já a palavra “comunicação” deriva do Latim "communicare" e significa “dividir alguma coisa com alguém”. "Geralmente o conceito de comunicação aplica-se à troca de informações sob a forma de mensagem. A partilha de experiências, sensações e emoções é igualmente um ato comunicativo. A comunicação pressupõe, deste modo, que algo passe do individual ao coletivo, embora não se esgote nesta noção, uma vez que é possível a um ser humano comunicar-se consigo mesmo. A comunicação é um processo e, como tal, dinâmica, evolutiva. Modelos do processo de comunicação consideram principalmente os processos intelectuais, apesar de uma mensagem poder ter consequências de ordem emocional e produzir efeitos afetivos, para além dos comportamentais e cognitivos. A comunicação é essencial à socialização, à aculturação e à formação-educação do indivíduo”. (Disponível em https://www.infopedia.pt/$comunicacao)
Protótipo 1
Neste momento preparamos um primeiro protótipo, para explicitar a consequência final de nossa crise situada. Objetivando gerar uma provocação por meio deste protótipo, fizemos as seguintes perguntas e escolhas: quais dramas seriam especulados? Quem seriam os atores no drama escolhido? Qual o recorte da crise situada?
O protótipo 1 foi materializado e apresentado na forma de uma narrativa visual, acompanhada por uma fala que conduzia o espectador por meio de imagens especulativas sobre um dos inúmeros dramas contemporâneos potencialmente agravados pela crise na comunicação, que podem levar ao suicídio.
A narrativa visual representa um dia na vida de um jovem japonês, enfatizando o sentimento de solidão e a depressão que o acompanha mesmo vivendo em uma cidade densamente populosa. Questões sobre dificuldade na comunicação e suas consequências são sugeridas por meio das seguintes cenas:

Hoje, ao revermos este processo, identificamos ter ido além de apenas situar e mostrar a nossa aproximação. Ao criarmos essa história geramos um protótipo inicial que provocou tensão e desconforto devido ao polêmico tema. A partir dessas reações, repensamos nossa abordagem e seguimos o processo de projeto.
Protótipo 2
O segundo protótipo foi um vídeo acoplado a um Google Formulário que apresentava perguntas direcionadas às mães, a fim de elas fazerem parte da nossa especulação em forma de pesquisa.
Abaixo estão os roteiros de cada parte do vídeo (casa):
Casa 1:
Ambientes: sala
Filho: necessidades: brincadeira, interação, mostrar jogo para mãe
Máquina: celular/tablet/TV
Mãe: estar perto é dar atenção - “está ali, não se dá conta”

Casa 2:
Ambientes: varanda
Filho: necessidades: atenção
Máquina: brinquedo/robô/celular
Mãe: distante, desligada do filho

Casa 3:
● Ambientes: cozinha
● Filho: necessidades: comida
● Máquina: robô amigo
● Mãe: solo

Casa 4:
Ambientes: quarto
Filho: necessidades: afeto
Máquina: robo ‘gente’
Mãe: O crescimento das necessidades do filho e o crescimento da máquina são inversamente proporcionais à mãe

A pesquisa tinha as seguintes perguntas:
O que você está sentindo? Expresse em 3 palavras.
Quanto o vídeo representa a realidade? (sendo 1 "menor" e 5 "maior" representação)
Você se identifica com alguma casa?
Se sim, com qual casa?
Se não
a nossa comunicação não é assim
isso é uma possibilidade futura de comunicação
Como está a comunicação com seu/sua filho/filha? (sendo 1 "precisa melhorar" e 5 "está ótima")
Na sua visão, as tecnologias digitais contribuem ou dificultam a comunicação? Por quê?
Pensando no futuro, na sua opinião, como será a comunicação mãe e filho/filha? Por quê?
Obtivemos 82 entrevistas. Porém, após análise e assessoramento com a professora, percebemos que a pesquisa induzia à crise na comunicação, comprometendo a isenção. A partir desse entendimento, reformulamos o protótipo.
Protótipo 3
Este protótipo é a evolução do protótipo 2. Mantivemos o vídeo, porém reduzindo o tempo, e reformulamos os questionamentos para três perguntas abertas:
O que você sentiu ao assistir ao vídeo? Explique em poucas palavras.
Ele te afetou e como?
Que reflexão você faz a partir do vídeo?



Obtivemos 44 entrevistas.
A partir desse último protótipo provocamos uma reflexão sobre diversas questões que permeiam a maternidade: sentimento, relação, comunicação, trabalho, vida social, uso das tecnologias. Com as perguntas abertas as mães puderam expressar livremente seus anseios, reflexões, angústias, medos, dilemas e vontades.
Na análise linguística transversal das 44 entrevistas verificamos que o protótipo promoveu de forma significativa o sentimento de negligência e de reconhecimento da representação da realidade, permeado por relatos de tristeza, identificação e culpa. Não ocorreram opiniões positivas sobre o uso da tecnologia mas mensagens e lições referentes à importância da presença e da interação da mãe, do alerta à não terceirização do cuidado e à necessidade de monitoramento do uso dos meios digitais. Somente uma entrevistada questionou a falta dos pais no processo; contudo, na análise transversal, expressou sentimento negativo e “temos que olhar com atenção os filhos”. É importante salientar o quanto a palavra e os significados de “comunicação” estão intrinsecamente relacionados à palavra e ao significado de “relação”.
A fase final de análise dos dados reforça o que Bauman apresenta em seu livro "Modernidade Líquida": que a sociedade, líquida, tem produzido sujeitos cada vez mais individualistas, com laços afetivos fluidos, rupturas de solidariedade e desmembramento familiar. (BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.)
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