A Composteira Digital
- Fernando Horlle
- 18 de dez. de 2020
- 8 min de leitura
Quando questionados sobre o conceito de sentir em rede, começamos a vasculhar no fundo das gavetas em busca de objetos antigos que nos lembrassem - de alguma maneira - alguns sentires outroras esquecidos. Por este processo - “quase arqueológico” - o tempo veio à tona, e com ele a nítida imagem da engrenagem que, de fato, ali naqueles objetos existia. Flusser (2018) nos lembra muito bem do papel da engrenagem na noção de tempo, e, em como a vida parecia ser ordenada conforme as rotações mecânicas deste componente até então essencial. Tal previsibilidade parece um tanto nostálgica considerando o contexto de complexidades rarefeitas do mundo atual. Porém, embora agora estática no interior de nossos antigos objetos, foi possível relembrar o ritmo compassado de seu funcionamento, de uma sonoridade que, ao ser ecoada enganosamente por nossas mentes, nos transportou para lugares e tempos distintos. Logo sentimos saudade!
Da máquina fotográfica analógica ao Palmtop [figura 1], nos deparamos com aquilo que um dia pertenceu à um hoje ancião. O contato e a troca de experiência através deste objetos fizeram calhar espontaneamente novos questionamentos: Qual é o tempo de sentir destas coisas? É esgotável? Como é esse tempo que nos faz sentir? Assim recorremos mais de uma vez aos objetos para obter uma possível resposta.
Figura 1. Os atores negligenciados

Fonte: os autores.
Passamos a entender que se tratavam de coisas que ainda nos despertavam sentimentos, e que, o fato de estarem obsoletas ou inutilizáveis, não amenizava o seu potencial de influência sobre nós. Esta constatação contrastava com a ideia prematura de “sentir em rede” que nos era cabível até o respectivo momento, pois, se tinha a forte suposição de que alguns sentires não seriam passíveis de lembrança através do meio digital. Isto se deu pela percepção conjunta (pelo grupo) de que, neste meio como um todo, estamos imersos em uma imaterialidade que não nos permite atentar para o tempo das coisas e suas transformações. Aqui nos referimos ao próprio envelhecimento e degradação, por exemplo. Trata-se então de um espaço virtual onde o tempo não reage sobre as coisas o tanto quanto poderia, e desta maneira, algumas ações tornam-se banais. Por este aspecto, a ação de “jogar fora” no meio digital nos intrigou consideravelmente.
Quando se abre “a gaveta do mundo digital”, ou melhor, um arquivo/pasta esquecido ou a própria lixeira por exemplo, encontramos também artefatos esquecidos. Estes, sob um estado extremo de fixidez cuja menor das transformações naturais em relação ao tempo (se é que isso seja possível no meio digital) seria absolutamente imperceptível. Indagamos assim o conceito de maturação como análogo a estas reflexões que nos cercavam. Buscamos entender o conceito de maturação como um espaço possível de contradição e motivação: ao explorarmos os significados deste termo compreendeu-se um processo, um tempo e uma transformação que não necessariamente correspondiam com as nossas observações.
Na biologia, o termo costuma significar o processo pelo qual as células sexuais ficam aptas para a fecundação, ou o processo em que um organismo se torna plenamente desenvolvido. Por este viés, o conceito de maturação logo revela um certo caráter determinista, ao supor que existe um momento específico para que alguma coisa se torne desenvolvida ou plenamente pronta. Logo pensamos na figura da mulher que, “aos quinze”, torna-se um corpo maduro, pronto para o ato de reprodução sexual, tal qual acredita a cultura ocidental. Mas será que psicologicamente este desenvolvimento corresponde ao corpo? Vimos que o conceito tradicional de maturação não inclui o espaço de indeterminação ao qual se queria buscar. Estávamos mais interessados nos processos de transformações do tempo sobre as coisas do que no estado final das mesmas. Assim perturbamos o conceito de maturação.
A partir da ideia de maturação, nos vimos sensivelmente atentos aos objetos e sons esquecidos do cotidiano. Coisas que supostamente não estariam perto de seu estado terminal (novamente, se é que isso existe.Refletimos então sobre os muitos materiais que, após o seu rápido descarte são jogados em aterros e acabam por não ter o tempo necessário para possíveis transformações, regenerações e ressignificações. Consideramos que o ato de “jogar fora” com os adventos digitais se torna algo deliberado, sem espaço para crítica ou reflexão: a facilidade de apertar uma tecla e sumir com a informação contrasta com os limites ecológicos que nos encontramos no jogar fora material.
Para perturbar o senso comum de “jogar fora”, demos início a uma prática de Wandering [video 1], ou “vagueio”, tal qual a tradução dos autores, onde andávamos pelas ruas sem ter uma direção prevista, na tentativa de assim seguir os resíduos ao nosso redor. Esta prática foi exercida pelos três integrantes do grupo, em momentos e locais distintos. A partir dos diferentes andares e percepções obtidas, foi possível desencadear uma série de questões que estavam distantes de nossas iniciais observações.
Vídeo 1: Explorando o lixo pela arte do vagueio
Fonte: os autores
Foi seguindo o lixo que deciframos algumas de suas dimensões. Nos deparamos com a visão caótica proporcionada pelo seu protagonismo frente ao ambiente urbano. Em meio à presença agitada dos automóveis, dos ambulantes, das buzinas ensurdecedoras, dos gritos e atropelos, habitou - uma vez - o descompasso de um caminhar dissociado, motivado por uma frequência que lhe permitiu perceber o cenário à sua volta. De sacolas plásticas à papelão e embalagens de marmitex, o nosso trajeto mapeou os diferentes “agentes do lixo” que, só foram desvendados em sua plenitude, assim que cada passo era estendido, cada ambiente era registrado e cada sensação era percebida, situacionalmente. Por esta diversidade, alguns atores chamaram nossa atenção, a ponto de interromper momentaneamente o movimento dos pés.
As árvores, que a este cenário pertenciam, simulavam verdadeiros “landmarks” de concentração de lixo, uma vez que seus caules, galhos e raízes, eram capazes de acomodar grandes quantidades de descarte. É como se em meio à multidão e à turbulência, o lixo encontrasse um momento de paz, até ser recolhido e transportado para um outro além. Sobre estes contrastes se tem o “tempo” (novamente) como agente fundamental. Árvore e lixo parecem pertencer a tempos distintos, pois, o lixo ora está ali, ora já não está mais. Além disso, o lixo torna-se lixo tão rapidamente que, muitas vezes, uma distinção clara entre estes momentos é imperceptível. Mas a árvore, discretamente permanece em seu lugar. Respeitando seu próprio tempo e processo de maturação, ela cresce e transforma-se, revitalizando nosso ar, nos fornecendo sombra, abrigando os animais e - por que não - o nosso próprio lixo.
Nos deparamos com a facilidade do “jogar fora” entre aquilo que é material e que não nos faz mais sentir. Quando descartamos algo que chamamos de lixo, é como se algo que um dia nos serviu deixasse de existir aos nossos olhos. Comprar, consumir e descartar é um hábito praticamente inato da vida contemporânea, cujo movimento é invisível mas repetitivo, e pouco se reflete sobre. A lata de lixo, que nos é comum nesta situação, parece amenizar qualquer esforço de arrependimento ou culpa sobre tamanha alienação.
O ato de jogar fora passa a ser problematizado como um mapeamento de situação de projeto: o que você quer jogar fora da sua vida? Esta questão veio à tona, quando nos permitimos compreender que, se tratando de “jogar fora o lixo”, não existe um “fora ou dentro”, o lixo pertence ao nosso redor. Sendo assim, o próprio resíduo descartado desobedece estas delimitações espaciais, fato evidenciado pela quantidade de lixo que fora visto “livre” nas ruas.
Buscamos, a partir da constatação desse descaso, perturbar as nossas redes ao tornar este questionamento público. A pergunta foi lançada na rede social Instagram, e as respostas - para nossa surpresa - pouco tinham de semelhança com aquilo que fora identificado como descarte nas ruas da cidade [figura 2]. Enquanto objetos materiais são facilmente descartados e esquecidos, nossa rede (social) revelou uma dificuldade de “jogar fora” em relação à sentimentos, experiências, pessoas, hábitos e aspectos políticos. Entramos então em um espaço de contradição, onde o ato de “jogar fora” é deliberado quando se trata de resíduos físicos e digitais, mas, ao mesmo tempo, há o anseio e, porém dificuldade, de se livrar de sensações e angústias vividas no contexto atual de pandemia. Neste momento do projeto entendemos que "restaria ficar com o problema" e começa assim a ideia de compostagem.
Figura 2. Interações pelas redes sociais

Fonte: os autores
Esses objetos materiais e imateriais, diferente do que desejamos e fingimos acreditar, não somem de nossas vidas no momento em que são descartados. Eles vão parar, a depender de sua natureza, em aterros sanitários ou no fundo de nossa psique. Chegamos, nesse ponto, em uma afirmação fundamental para o destino da nossa especulação: não existe “fora” ou “dentro”. Podemos, aqui, tomar uma importante decisão. Deixar os dejetos e os sentimentos acumulando-se uns sobre os outros, ou transformá-los. A compostagem, processo biológico de estímulo à decomposição de materiais orgânicos, é um processo de transformação, após um período de maturação, de restos de alimentos em adubo natural rico em nutrientes, que pode então ser utilizado para fertilizar novas plantas. A compostagem nos serviu como estímulo criativo para o processo de transformação da realidade por meio da especulação. A ideia de compostagem como um artefato especulativo inicia-se através da aleatoriedade e do embaralhamento das diversas respostas e atores humanos e não humanos encontrados na prática experimental (tanto wandering como demais observações).
Utilizando de nossa compreensão acerca do conceito e funcionalidade de uma composteira convencional, somada às inspirações de projeto e ao conceito de “sentir em rede”, demos início à prototipagem de um artefato especulativo. Nossa intenção aqui, era permear as dimensões materiais e digitais simultaneamente, criando nada menos que um artefato híbrido. Para isso, o protótipo se valeu de um perfil na plataforma digital Instagram, através da construção de um feed pensado estrategicamente para apresentar as nossas potenciais críticas acerca do tema do descarte. Com o intuito de amplificar a proposta de Di Felice (2017) de sentir em rede propondo um ciber ativismo capaz de questionar e perturbar o “jogar fora” através de interações com imagens, colagens e vídeos criados como uma fonte de estímulo para o espaço de diálogo.
Figura 3. A Composteira Digital

Fonte: os autores
Disponível em: https://www.instagram.com/composteiradigital
Sobre o conceito de “composteira digital”, a estrutura do perfil de Instagram seguia a representação do que julgávamos corresponder a um artefato de teor especulativo. Como possível descrição: uma composteira digital trata de uma lenta dissolução de coisas que, para nós, humanos, já deram seu último respiro de vida. Nem por isso ela pode ser considerada um cemitério, muito pelo contrário, está imersa em um processo vivo de transformação onde diferentes coisas se misturam pela primeira vez. Tanto objetos materiais quanto imateriais, tem-se um espaço reservado para o que quiser ser posto fora, não há limites para o que ela possa suportar. Como qualquer outra composteira, necessita ser alimentada constantemente com a única condição de permitir a maturação, como um tempo indefinido onde ocorrem ações obscurecidas. Apenas assim, torna-se capaz de converter os lixos e os resíduos naquilo que denominamos de "chorume digital", algo alcançado por meio da colaboração de todos neste processo. Para melhor compreensão, segue o vídeo 2 abaixo:
Vídeo 2. A composteira como artefato especulativo
Fonte: os autores.
Disponível em: https://www.instagram.com/tv/CIWYnzCBzmj/?utm_source=ig_web_copy_link
Tendo em vista o caráter interminável de uma experimentação especulativa, não nos contentamos em tratar o protótipo como encerrado em si mesmo. Do “chorume digital” resultante de nossos processos, sugerimos uma nova pergunta: o que você quer fertilizar no futuro? Dadas as qualidades de fertilização que constituem o chorume, nossa intenção é novamente abrir espaço para reflexões, criações de cenários e especulações. Saímos de uma condição de maturação enquanto processo de transformação do lixo, para um campo de possibilidades inimagináveis para o futuro. A composteira digital, portanto, está a cumprir o seu papel de existência. Muito provável que caia em esquecimento, assim como os objetos em nossas gavetas. Contudo, isto faz parte da experimentação e da alternativa de compreender este artefato enquanto também imerso em processo de maturação.
Autores: Lúcia Kaplan Dimas Gloeden
Fernando Horlle
Referências Bibliográficas:
DI FELICE, M. Net-ativismo: da ação social ao ato conectivo. São Paulo: Editora Paulus, 2017
Dunne, Anthony and Fiona Raby. 2013. Speculative Everything: Design, Fiction, and Social Dreaming, pp. 1–9. Cambridge, MA: The MIT Press
FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. Ubu Editora LTDA-ME, 2018.
Haraway, D. (1995). Artigos saberes localizados: Cadernos Pagu, (5), 07–41.
Meyer, G. A Experimentação como Espaço Ambivalente de Antecipação e Proposição de Controvérsias. Revista Estudos em Design. Rio de Janeiro: v.26/n.1, p. 29–47. 2018.
Puig de la Bellacasa, M. (2011). Matters of care in technoscience: Assembling neglected things. Social Studies of Science, 41(1), 85–106.
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