Reinvenção de espaços tecnológicos como matters of care - reunindo coisas negligenciadas
- livia lampert
- 5 de out. de 2021
- 3 min de leitura

À luz das reflexões que o texto “Matters of care in technoscience: Assembling neglected things“ de Maria Puig de la Bellacasa me trouxe, desenvolvi um protótipo de playbook para criação de espaços tecnológicos que unem os principais pontos que do texto que me marcaram:
Cuidado
A vida política das coisas (adaptando aqui “coisas” a uma leitura de “espaços/ambientes”)
Feminismo
O texto provoca, na elaboração do conceito de que as “coisas” podem ser vistas como objetos de vida política, como “nós” estamos contribuindo para a construção do mundo. E a autora cita também que “cuidar envolve uma noção de fazer e intervir”. Como Designer Estratégica em formação e no meu processo de aprendizagem como mestranda nessa área de conhecimento, os respectivos trechos invocaram em mim, neste “nós” da autora, o sentimento de responsabilidade a uma intervenção necessária para um tema (também mencionado no texto), que me inspira pela identificação com o gênero e com seus respectivos “concerns”: o feminismo.
Mais especificamente, em minha realidade de trabalho - inserida no mercado e no espectro de mundo da tecnologia - percebo uma representatividade ainda muito baixa de mulheres no segmento. Segundo estudo (Beede et al., 2011; Forrest, 2014), o número de mulheres que moldam ativamente o desenvolvimento da tecnologia é inferior a 30% (mulheres trabalhando em empregos de ciência e engenharia), sendo menos de 12% em cargos de liderança.
Usando a ótica da autora de que “afirmar que as questões de fato são questões de preocupação estimula a consciência da vulnerabilidade dos fatos e coisas que nos propusemos a estudar e criticar”, extrapolei a afirmativa para estes dados, para então pensar sobre os concerns dessa baixa representatividade.
Ao longo das décadas, tecnólogas identificadas do sexo feminino responsáveis por inovações tecnológicas foram eliminadas da história e o que percebemos hoje na cena contemporânea é ainda uma maioria de recursos criada em ambientes dominados por homens.
Imagens de hackerspaces, evidenciando a dominância masculina no contexto de inovação tecnológica.
A estratégia para inserção de mulheres nestes ambientes portanto, mostra o que a autora denomina no texto de um “matters of care”, ou como ela cita sobre o cuidado: “cuidar está conectado com a consciência da opressão e com compromissos com experiências negligenciadas que criam pontos de vista de oposição”.
Como meu experimento poderia então criar experiências que criam um ponto de vista de oposição, que contribuísse para que mulheres se percebam como protagonistas de novas soluções tecnológicas? Logo em mente me veio uma ideia do que não gostaria de fazer….”pintar de rosa” um artefato existente (vide exemplos abaixo ilustrados), mas sim criar um protótipo vinculado ao fomento de espaços, assim como outros chamados “hackerspaces” já existentes (espaços abertos para desenvolvimento de habilidades que incluem programação, consertar, soldar, construir circuitos elétricos e construir protótipos para dispositivos interativos), voltados a mulheres (cis ou trans) e pessoas não binárias.
Exemplos de “pinkwashing”: equipamentos de tecnologia aberta cuja proposta era serem “femininos”: Lilypad Arduino ou Sakura Board.
Esses espaços têm o potencial de democratizar tanto o início quanto a promoção de uma relação contínua e livre de mitos com a tecnologia. Quando excluídas as figuras masculinas desse espaço e é criado um ambiente não só de construção de habilidades técnicas, mas que, pela sua formatação (e daí a importância do playbook como facilitador da condução dessas práticas), facilita e conduz o empoderamento daquelas antes consumidoras passivas de tecnologia para participantes ativas e críticas em sua apropriação. Além disso, propicia um apoio mútuo por meio de compartilhamento e aprendizagem que leva ao desenvolvimento de soluções para particularidades da perspectiva feminista.
O hackerspace feminista pode ser criado em qualquer região e espaço, a partir desse playbook prototipado (um “manual” iterativo e evolutivo, de propriedade aberta), como um ethos feminista que representa o cuidado e não se reduz à aplicação de uma teoria estabelecida somente, mas que será constantemente repensado, contestado e enriquecido através do aprendizado.
Referências:
Feminist Hackerspace as a Place of Infrastructure Production. Disponível em: https://adanewmedia.org/2018/05/issue13-savic-wuschitz/. Acesso em: 16 de setembro de 2021.
Puig de la Bellacasa, M. Matters of care in technoscience: Assembling neglected things. Social Studies of Science, 41(1), 85–106, 2011.
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