Papel agonista
- livia lampert
- 30 de set. de 2021
- 2 min de leitura
Se de um lado tem-se o ovo como corpo sólido, ainda que com certa maleabilidade, de outro temos um recipiente de vidro translúcido rígido cujo bocal bloqueia a passagem do ovo para o interior da garrafa pelo antagonismo de suas formas. Apresenta-se o conflito que impede a visão de futuro: o ovo engarrafado.
O que seria então, o ponto de virada? Aquele que pode realizar o papel agonista. Nesse caso, é o papel exercido pelo papel. Porém não simplesmente um papel qualquer - como se olhássemos para ele como artefato técnico isoladamente -, mas um papel em chamas, capaz de transformar o ambiente interior da garrafa a ponto de gerar uma resposta física que provoca tensão entre ovo e garrafa a ponto de trazê-lo (com sucesso) para o interior, usando da propriedade maleável do primeiro objeto.
Somente quando combinados - e numa composição específica - estes artefatos: vidro, ovo e papel em chamas, tem seus aspectos tornados visíveis e percebidos, deixando para trás a neutralidade da subordinação quieta que oferecem enquanto pontualizados, na perspectiva de Law (1992). Uma rede se forma nesta combinação e somente se mostra bem sucedida na sua realização da visão futura com aspectos bastante específicos pois, antes do experimento bem sucedido, outros geraram aprendizado durante o processo: o papel não incandesceu o suficiente; o papel não era incandescente. E este aprendizado somente tornou-se realidade quando na atividade presente de experimentação material.
Ao encontrar a “constituição” que transforma antagonismos em agonismos, artefatos se fundem como atores e com o autor do processo projetual que conduz, dispõe e interfere no seu contexto único, com um controle que não é total. Tanto não é que, o ovo, à luz deste experimento, se fragmenta ao final da ação, resultado que não era necessariamente esperado, mas sob o qual não se poderia firmar total controle.
Reflexões de um experimento metafórico inspirado pela leitura do texto A Experimentação como Espaço Ambivalente de Antecipação e Proposição de Controvérsias (Meyer, 2018).
Bibliografia:
Meyer, G. A Experimentação como Espaço Ambivalente de Antecipação e Proposição de Controvérsias. Revista Estudos em Design. Rio de Janeiro: v.26/n.1, p. 29–47. 2018.
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