PanOptycal
- Luhcas Alves
- 14 de dez. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 10 de jan. de 2022
O antropoceno apresenta diversas crises, tanto éticas, políticas, estéticas e das relações - sendo elas tanto provocadas e sentidas pelos humanos. A especulação inicial do grupo questionou esse papel imbricado entre causador e “sofredor” das suas próprias ações humanas, questionando: Quais são as posições que os humanos assumem perante si próprios?
Assim, a jornada do trabalho de especulação em experimentação em design estratégico se iniciou, estabelecendo uma relação com o panóptico proposto pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham, que em 1785 elaborou um ideal de penitenciária. O panóptico é composto por uma torre central com um feixe luminoso, de onde os agentes penitenciários conseguem vigiar constantemente os aprisionados, dispostos circularmente em celas ao redor da torre central. De modo que os aprisionados nunca saibam quem os vigia, mas saibam que estão sendo vistos o tempo todo. Mais tarde, Michel Foucault extrapolou essa estrutura para o conceito de vigilância permanente - levando-o para outros locais como a casa, as escolas, as fábricas, os manicômios e outras instituições.

No exercício de especulação foi possível entender que a capacidade de observar de maneira privada tem se expandido. As estruturas de poder social e cultural, quer partam de Estados, de organizações privadas ou da sociedade civil, se utilizam de artifícios digitais para manter um estado de vigilia constante, na grande maioria das vezes de maneira indireta, anônima ou disfarçada. Alguns questionamentos surgiram: Quais crises podem ser geradas a partir dessa estrutura? Quais novas relações são imbricadas nesse contexto social com diversos atores e suas ações? Quais celas são mais vistas em detrimento de outras? Esses atores poderiam assumir o papel de aprisionados, mas também de carcereiros?
As redes sociais são um reflexo das relações sociais humanas analógicas. É preciso entender que essas relações digitais são mais explícitas, além de serem facilmente rastreáveis. Observar as relações de poder e de privilégio nas redes sociais são mais facilitadas e por isso, o grupo realizou um mapa da visibilidade, construindo um moodboard contendo propagandas publicitárias, ideais de heróis, estruturas e modelos familiares, estilos de vidas, ideal de beleza, orientação sexual vigente, comportamentos sociais, entre outros que os algoritmos propulsionam. É fácil observar o padrão estabelecido na pesquisa em que o ideal de padronização é branco, masculino, cristão, cisgênero, sexualizado, classe média, com estereótipo magro e de família tradicional.

Esse mapeamento permitiu entender que, em detrimento deste ideal, existe um contraponto de invisibilidade de outros perfis ou ideais que não replicam esses estereótipos. Os vetores de invisibilidade puderam ser separados em gênero, raça/etnia, religião, classe social, tamanho de corpos e orientação sexual. Um indivíduo que possua uma dessas ou diversas características não padrões, é cada vez mais invisibilizado socialmente - tanto virtualmente quanto em meios reais.

Mapeando, via netnografia, os perfis mais invisibilizados pelo instagram foi possível relacionar, novamente, com o conceito do panóptico, em que muitas vezes alguns dos atores encobertos acabam assumindo atitudes padronizadas porque entendem que assim conseguem ser visualizados pelos algoritmos. É como se eles saíssem das celas sociais que os aprisionam, por assumir um comportamento estabelecido como ideal, deslocando-se para a torre de vigilância central do panóptico. Nesse jogo sofrem, mas também podem perpetuar o sistema que causa sofrimento a todos.




Nesta dualidade em ser visível e invisível em uma estrutura já operante, foram propostos 2 óculos capazes de potencializar uma realidade desejável daqueles que o vestem. O primeiro óculos permitem que o usuário possa enxergar a realidade comumente invisibilizada que o cerca e o segundo óculos permitem realçar as fantasias pessoais daquele indivíduo. Qual seria a escolha que cada sujeito faria em um cenário de crise no antropoceno? Seria mais fácil escolher um par de óculos que ressalta um universo fantasioso e colorido, trazendo conforto e novas descobertas como um ópio digital ou escolher um artefato capaz de ressaltar os atores invisíveis que perturbam as convicções conservadoras, em uma sociedade composta por diversas crises?
Esses dois óculos são os artefatos tangíveis da especulação projetual de design e que colocam em xeque os discursos e escolhas pessoais dos usuários. Para analisar essas escolhas, o grupo desenvolveu duas representações visuais compartilhadas na plataforma TikTok, com o intuito de analisar as escolhas e qual seria a propulsão algorítmica dos dois vídeos. Os humanos e as máquinas escolheriam um tipo de linguagem para ser mais distribuída na rede? Existiria alguma predileção por uma realidade imaginada? Os usuários escolheriam encarar a crise do antropoceno ou escolheriam continuar em uma fantasia de um futuro que talvez não exista?

Apesar de resultados semelhantes nas duas postagens, o vídeo que propõe que os usuários dos óculos terão uma realidade desejada, ou seja, um vídeo com cores vibrantes expressões alegres e movimentos que remetem ao prazer, obteve um maior alcance na plataforma. As postagens foram feitas em dias consecutivos, no mesmo horário, sendo assim, é possível visualizar predileção do algoritmo por um tipo de conteúdo; uma evocação de uma realidade fantasiosa e enfeitada.
Os comentários resultantes da experiência vem para reforçar essa métrica imposta pelo algoritmo da plataforma, o óculos que remetem a uma realidade fantasiosa tiveram comentários relacionados a dias felizes e lembranças de bons momentos e lugares especiais. Por outro lado, o vídeo que remete a realidade, que se mostra antagônica à realidade utópica do mundo digital, é caracterizado pelo medo como descreve uma usuária da plataforma “medo, muitos medos!”. Outro comentário o caracteriza como sombrio e a usuária segue “parece que os óculos fazem enxergar coisas ruins, que os deixa bravos!”.

A plataforma funciona, neste contexto, como um panóptico, porém nesta estrutura ambos vigiam e são prisioneiros. A plataforma e seu algoritmo acabam formando um regimento subjetivo para criar uma realidade que desconsidera minorias, ignora crises e potencializa a visibilidade daqueles que sempre foram protagonistas na história da humanidade.
Não se deve desconsiderar um dos principais agentes para que esse regimento exista, o sistema capitalista. A plataforma se apresenta como uma ferramenta para gerar visibilidade e comunidade, porém, é possível interpretar que ela também gera ansiedade e angústia. Esta angústia e ansiedade só serão aplacadas através do consumo de coisas (objetos, pessoas, alimentos, comportamentos), estas coisas sendo fetiches, no sentido de Bourdieu, capazes de trazer o feixe da visibilidade do panóptico para si. Este feixe conduz a percepção de uma realidade que é norteada por padrões, sejam eles de beleza, comportamento políticos e assim por diante. Esses padrões se mostram “possíveis” através do consumo, que é, efetivamente, um degrau para atingir a visibilidade dentro das plataformas digitais, e quem não atende esses padrões estéticos e comportamentais tende a cair em um ostracismo proposto pelo algoritmo.
O artefato projetado e a metáfora desenvolvidos pelo grupo tiveram êxito em trazer luz a essa relação em que usuários se mostram tanto vigiados, quanto vigiadores, em um movimento cíclico infinito de vigilância e punição. Pessoas fora do padrão deste sistema de vigilância acabam sendo invisibilizadas nas plataformas, e permanecem presas às mesmas margens às quais estão sujeitas fora da internet. Após observar estas relações enfrenta-se o questionamento: Será possível criar estruturas que não vigiem e não punam?
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High True:
Trabalho elaborado por: Angelix Borsa, Daniele Lopes, Kalvin Pilleti, Luhcas Alves e Mariella Hoehr.
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