Lições de um cuidado cotidiano
- Vitória Cumerlato
- 23 de set. de 2021
- 1 min de leitura

Comprei uma plantinha. Coloquei-a sob a mesa ao lado da janela. Todo dia eu cuido dela: rego, posiciono-a para que pegue sol e coloco adubo. Dia após dia me pego olhando para planta. Torcendo para que cresça, que fique grande e bonita. Segundo Puig de la Bellacasa (2011), os trabalhos domésticos são trabalhos de cuidado, não mediações reprodutivas naturais, mas ações produtivas que sustentam relações habitáveis. Como, então, um cuidado cotidiano – regar, iluminar, adubar o vaso de planta – pode ensinar humanos e não-humanos a conviver em harmonia e, quem sabe, fazer com que se encontrem formas de (re)afetar um mundo objetivado? Através da prática cotidiana, o cuidado pode ser visto como uma forma de assumir a responsabilidade pelo que cuidamos. A planta é cuidada por mim, mas nem por isso significa que tenho controle sob ela. Ao passo que ela cresce pode seguir seu próprio caminho sem que seja dominada. Posso imaginar o que ela poderia se tornar, mas não posso definir de antemão o que ela será. A cada dia que passa, durante seu desenvolvimento, nos relacionamos, eu e a planta. E, do cuidado dessa relação, a planta - agora crescida – me ensina uma lição: é possível viver em um mundo habitável em plena harmonia. No mundo particular do nosso apartamento, convivemos em uma teia complexa que sustenta a nossa vida: minha e da planta crescida.
Criação de protótipo a partir do texto: Puig de la Bellacasa, M. (2011). Matters of care in technoscience: Assembling neglected things. Social Studies of Science, 41(1), 85–106.
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