IMPROVISAÇÕES EMERGENCIAIS E DIGNIDADE HUMANA: EXPERIMENTAÇÃO SOBRE GAMBIARRAS NO CONTEXTO DE ENCHENTES
- Michelli Quiroz
- 18 de jul. de 2024
- 8 min de leitura
1. MODO ENGAJANDO-SE
Durante as discussões em grupo para definir a situação a ser abordada pelo projeto, um relato de uma das integrantes destacou a gravidade e a complexidade dos desafios enfrentados nas enchentes no Rio Grande do Sul.
Situação 1:
Diante da falta da distribuição de água na cidade, assim como a ausência de garrafas de água mineral nos mercados, a população recorreu a bicas públicas, que passaram a ser uma das poucas fontes de água disponível.
Em uma dessas bicas, localizada no bairro Rubem Berta, um menino desacompanhado pedia água para as pessoas da fila que aguardavam para abastecer suas garrafas e galões. Por ser uma criança e estar desacompanhada, o proprietário do terreno onde a bica estava permitiu que ela furasse a fila. Entretanto, como estava sem garrafa plástica para armazená-la, acabou recorrendo de forma “instintiva” para uma sacola plástica.
Para ilustrar o relato, a integrante do grupo desenvolveu algumas ilustrações. Percebe-se um acúmulo de lixo descartado indevidamente perto ao local da bica, o excesso de pessoas na fila à espera de água potável e as expressões da criança desacompanhada. As ilustrações dos adultos e do ambiente foram desenvolvidas com formas pragmáticas e geométricas para elucidar como essa criança poderia estar encarando uma situação tão distinta enquanto desacompanhada; Ademais, para contrastar com as ilustrações citadas anteriormente, a criança foi desenvolvida de forma lúdica para representar a inocência que essa possuía em meio ao ambiente de calamidade e adultos.
Após o relato e ilustrações da colega, o grupo percebeu que a “inocência” que a criança apresentava, poderia ser algo além da questão da idade. Fez o grupo questionar a realidade daquela criança, o porque estava desacompanhada e que não seria a primeira vez que precisou recorrer a objetos improvisados, devido ao quão feliz essa ficou ao conseguir água potável em um recipiente do qual muitos não iriam querer ou pensar em recorrer.
Ilustração 1: Ilustração bairro Rubem Berta.

Fonte: Quiroz, 2024.
Em situações de emergência, como desastres naturais ou crises humanitárias, o acesso seguro e adequado à água potável diz respeito a questões essenciais de sobrevivência. A falta de um recipiente apropriado pode forçar o uso de alternativas improvisadas, potencialmente comprometendo a qualidade e a segurança da água consumida.
Situação 2:
O segundo relato abordou outra faceta da crise, revelando a falta de suprimentos adequados para atender às necessidades específicas de diferentes grupos da população. Pessoas obesas enfrentam desafios adicionais para encontrar roupas que se ajustem ao seu corpo e promovam saúde e bem-estar.
As pessoas obesas enfrentam desafios adicionais para encontrar vestuário que não apenas se ajuste ao seu corpo, mas também promova saúde e bem-estar. As limitações de doações desses produtos específicos afetam diretamente a dignidade dessas pessoas, especialmente em situações onde recursos são escassos e a improvisação se torna a única opção.
1.2 DISCUSSÕES
A ausência de uma garrafa de água ilustra uma improvisação na forma de recipientes alternativos. Essas soluções improvisadas podem não ser ideais em termos de função, já que podem não ser projetadas para armazenar água potável com segurança, o que compromete a saúde e a segurança do menino.
As roupas íntimas improvisadas a partir de sacos de lixo preto podem até demonstrar uma adaptação criativa em termos de forma. Elas são moldadas de maneira a proporcionar algum nível de cobertura, mesmo que temporário. No entanto, a função dessas roupas improvisadas pode ser limitada, assim como toca em questões morais devido a natureza do material.
As sacolas plásticas, em ambas as situações, assumem uma agência improvisada e limitada. Mesmo que elas se tornam artefatos que possibilitam adaptações que promovem uma alternativa aos recursos básicos/essenciais. Eles não foram originalmente projetados para essa função específica e, portanto, podem não garantir a segurança, a qualidade ou ainda a dignidade humana.
Matar a sede é bom, produzir mais plásticos não. Distribuir comidas em marmitas é bom, ter mais isopor sem o descarte adequado não. Os artefatos aparentemente assumem papéis antagonistas conforme o enquadramento que damos a suas agências. Os dois relatos demonstram como o plástico, apesar de seus impactos ambientais negativos, pode ser um recurso relevante em situações de crise. A presença do plástico nessas histórias demonstra tanto sua utilidade prática quanto os desafios ambientais e éticos que emergem nesses contextos.
Por um lado, o plástico é um grande vilão ambiental, contribuindo para poluição, enchentes devido ao entupimento de bueiros e danos à vida selvagem. Por outro lado, vivemos em uma realidade em que ele é indispensável, sobretudo em crises e emergências. Garrafas plásticas fornecem água potável em situações de crises como desastres naturais e guerras. Sem garrafas plásticas, a criança fica vulnerável à sede, sem falar do consumo dos problemas relacionados à água contaminada, que pode levar a doenças da população. Na saúde, seringas, luvas e máscaras plásticas são essenciais para a esterilidade e segurança dos procedimentos médicos.
1.3 DEFINIÇÃO DO PROBLEMA
A partir desses cenários, foram identificados materiais e recursos relacionados, como água potável, bicas, roupa íntima, abrigos emergenciais e sacolas de plástico. Vivemos em uma sociedade profundamente dependente do plástico e seus derivados, como o petróleo. A complexidade das questões socioeconômicas e ambientais relacionadas à produção e descarte desses materiais é vasta.
Essa dinâmica reflete a escassez de recursos e aborda questões de dignidade humana (social, política e cultural). Para muitos, o improviso é a única opção, tornando a criatividade uma ferramenta essencial para a sobrevivência. Os dois cenários do projeto permeiam esse “improviso”, que acaba por impactar a integridade das pessoas, desde necessidades essenciais até aspectos mais íntimos.
2. MODO PROTOTIPANDO
O Design Especulativo busca provocar perguntas e desafiar o status quo. Em vez de se basear em dados e probabilidades, ele utiliza a “imaginação” para criar cenários futuros e fomentar a reflexão e o debate. No contexto das gambiarras, o Design Especulativo pode levar a discussões profundas, ao destacar os aspectos contraditórios da sociedade em que vivemos.
Para representar as duas situações discutidas nas conversas iniciais do grupo, utilizou-se a Inteligência Artificial Generativa. Ao longo das explorações, as imagens obtidas nos trouxeram duas representações diferentes para um mesmo cenário: “mulher com roupa íntima improvisada feita de sacola de lixo”. No entanto, a definição de “obesa” gerou uma imagem de uma mulher com feições tristes, enquanto outra imagem parecia representar uma encenação teatral alegre.
FOTO
Isso revela preconceitos e estereótipos enraizados no data-set (vieses inconsciente) dessas ferramentas, o que é um reflexo da nossa sociedade. Enquanto uma imagem destaca a tristeza e a humilhação, a outra minimiza a seriedade da situação.
Portanto, novamente uma divisão se apresentava, assim como em certos materiais, em determinados artefatos e usos, há dois lados da mesma moeda. Dessa forma, o grupo foi conduzido à reflexão sobre como as narrativas e representações influenciam nossa percepção da dignidade humana e das condições de vida das populações marginalizadas, alternando entre pólos. O exagerado e o habitual, o aceitável e inadmissível, o rico e o pobre, o essencial e o luxo.
2.1 CATÁLOGO DE GAMBIARRAS
A gambiarra é um conceito amplamente conhecido dentro da cultura popular brasileira. Ela simboliza a criatividade e a capacidade de adaptação da população, especialmente das classes sociais mais pobres. Embora frequentemente vista como uma narrativa jocosa, a gambiarra representa soluções improvisadas, muitas vezes sem preocupação com segurança ou qualidade.
foto

fonte:
Nesse contexto, geramos imagens com inteligência artificial para instigar as pessoas sobre a relação vida improvisada X dignidade humana. Balizadores que na situação das enchentes todos vivenciamos direta ou indiretamente.
3. MODO TRANSFORMANDO
3.1 APLICAÇÃO DAS ENTREVISTAS
Com as imagens que geramos acima foi feita uma pesquisa com moradores do bairro Rubem Berta e moradores de locais nobres da cidade, com o intuito de entender a visão dessas pessoas sobre gambiarras.
Após a coleta das entrevistas, percebemos o contraste da utilidade e da presença da gambiarra no cotidiano dos entrevistados. A utilidade desse recurso improvisado foi reconhecida por todos os entrevistados. Entretanto, a presença da gambiarra foi constatada como uma solução limitada entre todos independente da classe social. Identificou-se um receio e julgamento entre os demais, mas curiosamente os entrevistados de bairros considerados nobres foram os que mais admitiram possuir gambiarras sendo utilizadas no seu dia a dia.
Ademais, quando questionados sobre como melhorar esses recursos improvisados e a participação do governo durante essas situações, as classes mais nobres identificaram uma parcela de responsabilidade do governo em situações de improviso, mas um tanto quanto descrentes sobre a eficácia desse envolvimento. Palavras como “ridículo, m****” e expressões como “não senti nada”, foram utilizadas por esses entrevistados. Enquanto isso, os moradores do Rubem Berta demonstraram ter um amplo conhecimento de como melhorar esses recursos improvisados, como melhorá-los “esteticamente” para ter uma usabilidade mais “digna”, porém, frisaram a disponibilidade de auxílios do governo durante essas situações emergenciais, mas sem identificar a responsabilidade desse setor para com a população.
Abaixo dois relatos que demonstram esses contrastes entre os entrevistados, sendo identificados pela cor branca os bairros nobres e a azul o bairro Rubem Berta.
Imagem 1: Contraste dos entrevistados.

Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Os dados coletados nas entrevistas mostraram que, embora a gambiarra não seja bem vista como uma solução emergencial, ela esteve presente na vida das pessoas em algum momento, independentemente da classe social.
Em vista da origem desse projeto, viu-se a necessidade de entrevistar pessoas que foram diretamente afetadas por essa catástrofe climática. Abaixo há o relato de uma moradora da cidade de Canoas, situada na região metropolitana (Grande Porto Alegre) de Porto Alegre (RS), uma das regiões mais afetadas pela enchente em abril de 2024.
Imagem 2: Enchente e a reconstrução.

Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
O bairro Rio Branco, de Canoas, é considerado um bairro de intersecção entre os nobres e os de classes com maior desamparo governamental, como o Rubem Berta da cidade de Porto Alegre. Em vista dessa informação atrelada ao relato acima, analisamos que a gambiarra é algo recorrente não apenas em situações de vulnerabilidade climática, mas sim de áreas com maior desamparo governamental. A entrevistada menciona que o improviso é parte do dia-a-dia do seu bairro, mas que utilizou de gambiarras apenas em momentos de extrema necessidade e como meio de “proteção e preservação”, não como algo para suprir outro produto. Ademais, apresentou preocupações e soluções por meio de setores governamentais, frisando que a gambiarra, principalmente o plástico em geral, é visto como um sinônimo de “reconstrução”.
Em vista dos dados coletados, retoma as duas situações que deram origem ao projeto, nos questionando, novamente, sobre a realidade em qual aquela criança está inserida por não sentir sua “dignidade” sendo afetada ao recorrer à sacola plástica como recipiente para água. Portanto, na situação 2, onde peças íntimas foram improvisadas, nos questionamos como as pessoas em situação de extrema vulnerabilidade nos abrigos, em sua maioria adultos, que precisaram ter suas roupas íntimas desenvolvidas a partir de “gambiarras”, tiveram seu senso de “dignidade” afetada.
3.3 APLICAÇÃO DO FORMULÁRIO
Por fim, buscando entender como a I.A articulou grande parte da transformação do nosso trabalho, reunimos as melhores imagens para verificar quais sentimentos elas despertavam nas pessoas. Uma vez que a sensibilização é fomentada pela visão do problema e as enchentes por sua vez trouxeram as problemáticas latentes na sociedade à tona.
Imagem 3: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 4: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 5: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 6: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 7: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 8: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 9: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 10: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 11: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 12: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Imagem 13: Olhar através da I.A.


Fonte: Desenvolvido pelos autores, 2024.
Reconhecemos a natureza dinâmica e incerta das situações criadas. Diversas mudanças e contratempos afetaram o projeto. Se o contato fosse presencial, poderíamos captar melhor a expressão corporal dos entrevistados e explorar mais profundamente a transformação causada pela materialidade do saco de lixo.
Grupo 4:
Aline Rezende
Danielle Lima
Douglas Panatta
Michelli Quiroz
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