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A estética da Angústia

Trata-se da velha senhora inquieta, ansiosa e atormentada com cheiro de mofo e outros odores estranhos, cultivados nos recônditos.



 Junho de 2024 e o Estado do RS estava vivendo um período de ressaca. Porto Alegre e região ficaram mais de 20 dias com bairros inteiros submersos na lama do Guaíba e seus afluentes.

Nosso grupo, formado para criar um experimento de Design especulativo, voltava a se encontrar no presencial.

Dos 05 integrantes, a situação era a seguinte: A primeira desistiu do Mestrado devido ao fechamento do Aeroporto; a segunda teve o bairro alagado e estava tentando voltar para sua residência; a terceira teve o local de trabalho alagado e estava apoiando na retomada, os outros 02 integrantes moravam em locais onde a enchente não havia impactado a vida cotidiana.

Em nossas conversas iniciais divagamos sobre os entulhos nas ruas da cidade. Nossa entranhas estão expostas na rua. Nossa história agora era lixo a céu aberto.



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Seguindo o fluxo da conversa, ficou claro que a situação que se oferecia ao grupo era uma inquietação que vinha da coexistência destes dois mundos - As vidas que seguem e as vidas que sangram. 

O dia a dia era marcado por essa dicotomia de realidades, em menos de 2 km de distância você poderia estar em um local onde a vida seguia normal - bares, restaurantes e vida noturna de bairro - e em outro onde só havia destruição, lixo e lama. Havia dicotomia não só do lado externo da vida, mas dentro da gente também.


Por fora está seco, a enchente mora em mim”.


Como trazer a fricção a desacomodação das vidas que sangram para as

vidas que seguem?


Inicialmente havíamos pensado em focar mais na cenografia, levar móveis da enchente para locais não afetados, passamos pela ideia de fazer um cartaz com fotos impactantes, mas enfim chegamos a ideia de projeto final.


O QUE SOMOS

Um experimento social, imersivo e sensitivo-sensorial.

O que compõe nosso experimento:


1- Cena: Levamos um cenário convidativo para o parque Redenção, local do nosso experimento. 

itens: Venda dos olhos, espumante, fones de ouvido, poltrona confortável, caixa de instruções e cartas de sentimentos.



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2- Áudio: Ponto crucial do experimento. Foi através dele que criamos a dicotomia, a fricção que poderia gerar angústia e reflexões nas pessoas impactadas. O grupo criou o roteiro e gravou em um estúdio especializado.

 

3- Abordagem das pessoas: O grupo convidada as pessoas para um experimento social, ao se sentarem era oferecida uma taça de espumante, os olhos vendados e inicia o play no áudio.





4- Caixa de perguntas



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A ideia era provocar situações de contraste, simulando as vidas que seguem e as vidas que sangram. essa dicotomia era representada pela espumante e poltrona de um lado e o  áudio do outro.




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A Experiência


            Passamos uma tarde de sábado ensolarada na Redenção fazendo esse convite para as pessoas que por lá passaram. Ao todo 12 pessoas viveram o experimento e mais algumas assistiram como curiosos. A idade variou entre 11 anos (uma menina) até 68 anos (um senhor). 

Em relação ao gênero foram 7 mulheres e 5 homens.

Ao longo do experimento observamos a mudança no semblante de alguns participantes, a menina de 11 anos chorou, o senhor de idade segurou a taça imóvel, sem tocar. De diversas formas a angústia se manifestou.

Ao final do experimento os participantes eram convidados para compartilhar livremente de forma escrita o que sentiram e depositarem seus escritos em uma caixa. Também era solicitado que escolhessem um sentimento (entre 75 opções) que mais havia se manifestado.


Segue abaixo a transcrição de alguns depoimentos:


Alguns refletiram extrema vulnerabilidade:


"Nervosismo, vulnerabilidade, impotência, ansiedade."


"Impotência"


"Medo, desespero"


Outros transmitiram revolta:


"Abandono do poder público!"


"Fora Melo, fora Leite. Negligência total com a população. Sentimento de revolta total."

"Abandono, medo, angústia, incerteza. Ouvir o som da chuva nunca mais será a mesma coisa…"


Mas a maior parte relatou certa ambiguidade em seus sentimentos.


"Dor - pelas perdas - pelas escolhas impossíveis, por não sentir tranquilidade com som da água e chuva que muitas vezes era paz."


"Sinto que tudo poderia ter sido evitado. Espero que não aconteça novamente."


"Eu fico me sentindo um pouco hesitante em relação ao estado… Tudo pode voltar a acontecer, mas a vida deve seguir da mesma forma".


"Sinto um desespero, um momento de incapacidade. Que muito mais pode ser feito! Dor por quem viveu isso! Acolhimento."


"Apesar da angústia e do desespero, sempre terá uma ajuda e um carinho"


Já as cartas selecionadas pelos participantes revelaram os seguintes sentimentos:

tristeza / desespero / frustração / susto / nervosismo / indignação / desilusão / angústia / impotência



Considerações sobre o processo


DESAFIOS:

Antes: reunir-se, tensão entre ser aberto e criativo e manter-se no foco da nossa intenção; No dia: O frio, o fone e as baterias de celular, o receio e a "ressaca" ética com relação à criança. Nossa dificuldade em incluir pessoas de rua no experimento, tendência a um público "de humanas" disposto a participar, talvez mais aberto a experimentos sociais, talvez por estarmos na Redenção. Será que teríamos resultados mais diversos / divergentes em outra localização?


PONTOS POSITIVOS:

A interação popular e os aprendizados gerados, o interesse e curiosidade que a montagem do cenário conseguiu despertar.


REFLEXÕES:

Com o passar dos dias, as pessoas tendem a esquecer os sentimentos mais viscerais que provocam desconforto, como a angústia causada pela enchente de maio, no RS. Conforme pessoas abandonam o voluntariado para retomar seus empregos e os abrigos vão fechando, busca-se uma sensação de normalidade (mesmo que irreal). A atmosfera criada para o experimento  resgata os sentimentos angustiantes, que causam desconforto. O mesmo desconforto que pode representar o estímulo para mudanças de comportamento necessárias e urgentes. A conversa pós-áudio teve por objetivo estimular os questionamentos, com poucas perguntas e mais escuta. Depois de reproduzir “ a estética da angústia”, através da atmosfera, o desafio era provocar os participantes para que usem esta angústia como motor de mudança, para ressignificar a relação entre vidas que seguem e vidas que sangram (não apenas durante a enchente).



MENSAGENS FINAIS

O design especulativo não tem a pretensão de concluir, mas sim de problematizar, trazer fricção. O experimento problematizou a noção de cidade e trouxe uma perturbação positiva para a reflexão. Ele não trouxe discordância de discurso, mas dicotomia de sensações. coexistência, confluência de sentimentos.

Esse experimento nos mostrou que as pessoas se importam. Quando elas se conectam afetivamente com a situação, elas também sentem. Talvez, elas não saibam como agir, isso fica grande demais, talvez isso as paralise. Mas a vida não está seguindo imune ao que aconteceu. Afetou sim as pessoas, a angústia existe, está presente, mesmo que a gente não a veja. 

O experimento gerou espaços para o pensamento crítico, para conversas significativas que trazem o cidadão para o debate do que não pode ser esquecido


Karen Ferraz

Tatiane Reis

Juliana Vieira

João Utzig





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