GRAVIDEZ, SEM ABRIR MÃO DE VOCÊ! LIBERDADE É TUDO!
- fmascarellodesign
- 14 de dez. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 12 de jan. de 2022
A temática abordada neste semestre envolve as crises que a sociedade atual enfrenta e as suas possibilidades de condução a um futuro cada vez mais distópico e liquidado. Assim, a pergunta feita é: qual seria o papel do design no contexto crítico vivenciado pela sociedade atualmente? Deste modo, a atividade projetual realizada teve como intuito a materialização de um argumento, de tal forma que este, pudesse ser explorado em campo, gerando reflexões e perspectivas a partir da perturbação proposta pelo experimento.
Iniciou-se a jornada por meio de uma conversa cujo o tema era a intolerância religiosa, porém percebeu-se que a discussão era muito mais ampla e complexa do que o imaginado, afinal o tema envolvia diversas camadas que deveriam ser exploradas com mais profundidade para que o nível de reflexão, e posteriormente de projetação, ocorresse de forma coerente e abarcasse as diferentes perspectivas que viriam a surgir durante o processo. Partiu-se, então, para a exploração de todas as intolerâncias que pudessem ser percebidas por meio de pesquisas na rede, buscando definir em poucas palavras o que seria uma intolerância, quais os seus impactos e quais os principais tipos percebidos.

Uma das primeiras impressões despertadas no grupo foi de que as intolerâncias aparecem em um primeiro momento, como consequência de fatos históricos, e que apesar de todos os esforços, elas dificilmente são extinguidas, apenas são amenizadas, e de maneira cíclica novas intolerâncias surgem conforme a sociedade age.
Procurou-se refletir qual seria a intolerância do futuro, pensando hipotéticamente no ano de 2030. Diversas ideias surgiram, uma delas foi com relação a práticas insustentáveis, mas concluiu-se que essa pauta já é uma realidade, visto o nível de destruição em que se encontra nosso planeta. Uma das integrantes do grupo então comentou de um sonho que teve, no qual uma mãe retirava a barriga com o bebê para provar uma roupa. Imediatamente muitas reflexões surgiram no grupo como: as dificuldades impostas no mercado contra as mães, a questão do corpo perfeito, e como isso poderia ser um objeto de especulação visto os avanços que a ciência vem tendo na área da medicina genética e nos mecanismos de reprodução e manutenção da vida. Procuramos então materializar esse sonho em um desenho, de maneira a expô-lo e coletarmos as reações das pessoas.
Surgiu assim, o “PregOut - Pais e filhos melhores”, que tem como promessa gerar uma vida de forma muito mais prática, sem causar os transtornos da “antiquada” e “natural” maneira de ter filhos. O produto criado consiste em uma cinta que permite o acoplamento de um invólucro de acrílico que simula a barriga de uma gestante e permite uma gestação de forma artificial, ele pode ser retirado sempre que necessário, dando ao usuário do produto a possibilidade de realizar atividades que diante de uma gestação de forma tradicional encontraria-se impossibilitado de desempenhar. Além disso, o PregOut oferece como recurso, a programação da criança que está sendo gerada, proporcionando que os pais possam moldar o indivíduo a partir de seus preceitos, alterando-se assim, características físicas e também de personalidade. Juntamente com o produto, desenvolveu-se um sistema de planos que oferece diversas vantagens aos usuários que o adquirem.
Em um primeiro momento, parecia ser a solução certeira contra as intolerâncias dar a possibilidade de pais e mães programarem seus descendentes para serem aceitos segundo as condições impostas pela sociedade ao qual estamos inseridos. No entanto, com a evolução das reflexões durante a jornada, percebeu-se que esse protótipo não estava fadado apenas a gerar um ser humano com perfeição, e sim, constituía-se ali, um instrumento de reflexão sobre a própria intolerância à maternidade. Diversas reflexões surgiram do protótipo, das quais podemos citar questões relacionadas ao narcisismo, individualismo, transhumanismo, liberdades e sobre a subversão da natureza sob uma ótica flusseriana, em que o designer mostra-se como um ser capaz de enganá-la por meio de suas criações.

O campo escolhido foi o Instagram, rede social que, na perspectiva do grupo, apresenta recursos que incentivam o narcisismo e que por vezes, incorre em práticas intolerantes. Outro fator levado em conta, é de que as imagens postadas na rede social são facilmente manipuladas por meio de filtros, o que muitas vezes revela que a imagem postada nem sempre corresponde à realidade de seu emissor. Como estratégia para engajar seguidores, procurou-se seguir perfis que possuíam algum tipo de relação com conteúdos referentes à maternidade ou poderiam ser influenciados por este tipo de conteúdo Complementando o processo estratégico, foram abordadas também pessoas por meio do Whatsapp, a maioria contatos próximos do próprio grupo, com o intuito de coletar impressões mais rápidas e sem qualquer tipo de interferência ou filtro no conteúdo argumentado.
As reações que surgiram foram dicotômicas. Diversas pessoas condenaram e criticaram a solução, outras acharam que se tratava de uma grande piada ou até mesmo sugeriram ser uma estratégia de marketing de alguma produção audiovisual distópica de ficção científica, porém outras se mostraram abertas a ideia apoiando a solução, principalmente por ser uma alternativa a quem estaria impossibilitado de gerar um filho de modo natural. Uma das postagens que mais reverberou possuía a frase “Você quer ter um filho, mas não quer passar pelo processo antiquado de gerar uma criança “naturalmente”, os comentários realizados expressavam ironia e indignação por parte dos seguidores do perfil, que não se limitaram apenas aos comentários da postagem, e enviaram mensagem de forma privada via chat.
Analisando os comentários recebidos das pessoas que tiveram contato com o protótipo, surgiu um questionamento também levantado durante as reflexões feitas em grupo:
Será que a proposta para acabar com a intolerância em relação a gestação, não irá gerar outras intolerâncias? Será que existe mesmo uma forma de acabar com as intolerâncias, de maneira científica, visto que elas dependem de pessoa para pessoa e que são construídas com base em valores que recebem de suas famílias?

Percebeu-se nitidamente que houve perturbação dos envolvidos em ambos os campos escolhidos, tanto o Instagram quanto o WhatsApp. Questões relacionadas à bioética e aos limites da criação foram levantadas até mesmo por aqueles que se mostraram à favor do protótipo e não encontraram apenas pontos negativos em relação ao produto oferecido. Outro ponto a ser ressaltado refere-se a expressões e palavras utilizadas nos enunciados dos produtos, “corpo deformado”, “programação”, “processo antiquado” foram amplamente criticados, além disso os seguidores do perfil alertaram sobre o teor dos conteúdos que estavam sendo divulgado, sugerindo melhorias na condução do conteúdo do perfil.
A última postagem realizada no Instagram foi um vídeo que elaboramos para sintetizar todo o conteúdo que vínhamos postando em "conta-gotas". Por meio de um discurso de liberdade - "Liberdade é não fazer concessões por nada e nem por ninguém quando o que está em jogo é a sua liberdade" - começamos a refletir sobre que liberdade seria essa e se, tal libertação, não poderia significar um outro tipo de escravidão. Será que um futuro de liberdade significa que seremos tão intolerantes a ponto de não abrir mão de nós mesmos, nem mesmo para gerar um filho? Será que a nossa felicidade deve estar sempre à frente de tudo e de todos? A intolerância diz respeito a sobrepor liberdades, o meu espaço sobrepondo o espaço do outro.
Diante de muitas reflexões, discussões e insights que surgiram ao longo do processo de prototipação e, visto que todos temos uma parcela de intolerância e convivemos, também, com pessoas que possuem suas parcelas de intolerância, percebemos duas questões: a primeira é a de que existe um certo receio, por parte da maioria das pessoas, em falar sobre intolerância e principalmente, em se assumir intolerante; e a segunda questão é a de que quanto mais falávamos sobre o assunto, melhor nos sentíamos em relação a abordagem do tema e, por consequência, mais tolerantes aos mais variados assuntos passíveis de intolerância.
Acreditamos, então, que o protótipo e toda a reflexão riquíssima que surgiu em torno, serviu como uma sementinha para mudar a nossa visão quanto grupo e quanto indivíduos no que tange essa crise que afeta tanto a nossa sociedade e que nos transforma, muitas vezes, em uma sociedade individualista, egoísta e, por fim, intolerante.
Disciplina: Experimentação em Design Estratégico
Alunos: Alice Sukiennik , Daniela Danni, Fabricio Mascarello, Lucas Becker, Marcos Engelmann e Vitória Cumerlato.
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