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Flutuações


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Em geral eu não suportava ficar sozinho num aposento desconhecido. Era só esperar, e em poucos instantes chegava o desmaio suave e terrível. O próprio quarto se preparava para ele: as paredes punham-se a emanar uma intimidade quente e hospitaleira, que escorria por todos os móveis e objetos. O quarto de repente se tornava sublime, e eu me sentia extremamente feliz ali. Mas isso não passava de mais uma dissimulação da crise; uma perversidade suave e delicada. No instante seguinte à beatitude, tudo se revirava e confundia. Eu fitava de olhos abertos tudo o que havia ao meu redor, mas os objetos perdiam seu sentido comum: uma nova existência os animava. Como se tivessem sido subitamente desempacotados de papéis finos e transparentes em que se encontravam envoltos até então, seu aspecto se tornava inefavelmente novo. Pareciam destinados a uma utilização nova, superior e fantástica, que eu em vão tentaria encontrar. Mas não era só isso: os objetos se deixavam tomar por um verdadeiro frenesi de liberdade. Tornavam-se independentes uns dos outros, uma independência que não significava simples isolamento, mas exaltação estática. O entusiasmo de existir numa nova auréola envolvia a mim também: uma forte aderência me prendia a eles, com anastomoses invisíveis que me tornavam mais um objeto do quarto, da mesma maneira que um órgão transplantado em carne viva se integra ao corpo desconhecido. (MAX BLECHER, 2013).

O texto acima, escrito por Max Blecher, um romeno acamado lidando com crises de identidade na década de 1930, amparou toda a minha leitura do texto ‘Experimental Design Atmospheres’. De alguma maneira, o embate do escritor com os objetos que constituem uma aparente familiaridade passou a ser também o meu embate — ou, pelo menos, revelou o mundo por debaixo. Uma batalha travada sobre as coisas e os lugares que elas repousam e habitam.


Assim como as experiências de Blecher com ambientes que causam desmaios e objetos que se reconfiguram em estados de suspensão, meu PROTÓTIPO I é uma descrição de episódios metafóricos — ou não — de dissociação que vivi nos primeiros dias do mestrado.


Antes de concebê-lo, alguns medos me perturbaram: o primeiro deles, a representação e depois, o mergulho fundo em um estado psicanalítico. Então, fui entendendo que estes estágios cumpriam com a função de remodelar o protótipo, de maneira que as forças que incidiam sobre ele, também deveriam ser consideradas. Tomei nota delas — por mais abstratas que fossem.


Adiante, algumas passagens do texto, trouxeram à superfície sentimentos em centrífuga. Atmosferas são o 'in-between' entre qualidades ambientais e estados humanos, "um intermediário peculiar entre sujeito e objeto". E se atmosferas são experienciadas através da presença corporal, como fenômeno subjetivo, eu realmente me senti imerso em um poder estranho naqueles primeiros dias, para qual fui atraído e precisei reconfigurar estratégias de interação — em parte, situadas por uma dramaturgia social.


Assim como a Ana, a criança que resolveu embarcar na aventura projetual por ela mesma, eu senti um distanciamento do coletivo. Uma diminuição monstruosa da minha própria persona, sentida em uma realidade alterada.


O PROTÓTIPO I nasce de delírios de decapitação. Cabeça que infla tanto que permanece unicamente presa ao corpo por cordas e fitas. Ao menor movimento de cisão, vai aos ares.


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EXPERIMENTAÇÃO EM DESIGN ESTRATÉGICO

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