Design Onto(i)Lógico
- Tatiane Braga dos Reis
- 24 de jul. de 2024
- 2 min de leitura
Design Onto(i)lógico
Projetar é fundamental para o ser humano – nós projetamos, ou seja, nós imaginamos, negociamos e planejamos nossas ações e produções. Ao mesmo tempo, somos afetados por nosso ato de projetar, bem como por aquilo que projetamos - pela dureza ou maciez de um material, pela luz refletida conforme o ângulo de incidência…. Assim, nós projetamos nosso mundo, ao mesmo tempo em que nosso mundo atua sobre nós e nos projeta. De acordo com o texto de A. M. Willis, o design ontológico é um modo de caracterizar a relação entre seres humanos e mundos da vida. A expressão “mundos da vida” (ou “lifeworlds” em inglês) refere-se ao conceito desenvolvido pelo filósofo Edmund Husserl e posteriormente aprimorado por outros pensadores como Alfred Schutz e Jürgen Habermas.
Mundos da vida são os contextos cotidianos e naturais em que vivemos e interagimos com outras pessoas. Eles englobam nossas experiências, práticas sociais, culturais e históricas que formam a base de nossa percepção e entendimento do mundo. Em outras palavras, são os ambientes e situações diversos que moldam nossa existência e nossas interações diárias, como mundos diferentes. Cada um deles com seus desafios e suas maravilhas; cada um deles, necessário ao exercício integral do Eu.
O Design Ontológico se ocupa da natureza e da agência do design, da interpretação e compreensão dos processos e práticas de design, que se preocupam como o design atua e influencia o mundo ao seu redor; e compreende o design como uma prática não centrada no sujeito, além de reconhecer que as coisas, assim como as pessoas, projetam; e, como consequência, uma defesa de certos modos de realizar a atividade do design, especialmente no contexto contemporâneo da insustentabilidade ecológica. O que nos leva a outra consequência: a teoria do design ontológico carrega consigo uma política, cuja lógica tende a contemplar um ou mais grupos, excluindo outros. Ontologia significa “relativo ou pertencente à compreensão do ser”. Ser, para quem? A partir de qual ótica interpretativa? Quem define O que é e Por que é assim? Na democracia a maioria decide. Isto que dizer que sua interpretação vale mais e pode suplantar as outras? Qual é a lógica por trás de tal escolha?
Se ôntico se refere ao que é, e o Design praticado muitas vezes desconsidera o Eu, transformando-o em simples sujeito, seria tal Design onto- (i)lógico? Enquanto a ontologia se refere ao questionamento do que é, o adjetivo “ontológico” se refere à condição ou comportamento do que é. O “ser-no-mundo” utilizado por Heidegger: Dasein. Dasein” se refere ao “ser humano”, mas somente a algo particular dos seres humanos, que é nossa capacidade de compreensão. A partir do Dasein somo capazes de compreender a necessidade de escolhas responsáveis…ainda assim, precisamos de outras motivações, de outros sentidos.
Será o Design Ontológico, uma perspectiva para a projetação consciente, capaz de conduzir-no na direção de reconhecer os mundos da vida e seus atores, contemplando o pluriverso que os habita, a partir de suas interações e afetações, de forma respeitosa e inclusiva, considerando as políticas implicadas em cada escolha?
Ou será esta uma utopia digna do País das Maravilhas?
Aliás, o que seria de lá, se os chapéus não usassem a cola que enlouqueceu o chapeleiro?
Bem, se o sindicato entrasse, a história seria outra…ou não.
Depende da lógica adotada.

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