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casas pré-fabricadas para pássaros pós-modernos



a atmosfera transforma o sujeito. o sujeito, então, não é mais o mesmo, e a atmosfera, portanto, não é mais a mesma. tudo o que acontece a partir disso é imprevisível. ao pensar em imprevisibilidade, é impossível não lembrar do poeta pós-moderno manoel de barros. na minha interpretação, as coisas ditas em sua obra não traduzem o convencional, são parte de um universo que não possui características mundanas, mas é sensível e visível, sem a lógica do sistema. em sua obra, o que parece evidente não passa de uma construção ideológica. para ele, a realidade é mais trágica do que se imagina. a poesia de manoel de barros apresenta um mundo real ao mesmo tempo que me mostra que o real foi criado por ele, escancarando nosso mundo criado por alguéns que determinam todas as interações que temos com a realidade.

quando eu nasci o silêncio foi aumentado. meu pai sempre entendeu que eu era torto mas sempre me aprumou. passei anos me procurando por lugares nenhuns. até que não me achei – e fui salvo. concerto a céu aberto para solos de ave (1991) manoel de barros


realidades, atmosferas e atravessamentos


meus gatos convivem comigo há mais de 8 anos. o cotidiano deles depende do meu. seu horário das refeições, o tempo descansando, as interações com visitantes e o que fazem durante o dia. eles refletem a minha existência mesmo preservando sua própria vontade. gravar o cotidiano deles me parece uma boa forma de definir uma atmosfera de experimentação. grande parte do seu dia é dedicada a observar os pássaros que voam e pousam nos galhos das árvores em frente à minha janela. em algum momento desse ano um pássaro pousou no parapeito e maria bethânia, minha gata, conseguiu agarrar ele em um movimento silencioso e rápido, e se não fosse a tela de proteção da janela, não teria soltado. me pergunto o que definiu essa interação entre gatos, pássaros e telas de proteção. pássaros não sabem o que são telas e mesmo assim são protegidos por elas, mas se não houvessem gatos no terceiro andar, não precisariam ser salvos. da mesma forma, se os prédios não tivessem sido construídos ao redor das árvores, talvez essa preocupação daria lugar à outra preocupação. será que os pássaros compreendem a segurança? afinal, pousar é uma característica natural de aves, mesmo que nada os alerte sobre a segurança de pousar em uma árvore cercada por prédios com gatos esperando o momento certo atrás da janela. eles não sabem quantos gatos podem encontrar, se as telas foram instaladas com precisão ou se a árvore pode ser derrubada.

pássaros vivem bem. mas eles sabem que poderiam viver melhor? ao pensar nisso, consigo imaginar e até escutar o apelo de propaganda imobiliária. uma propaganda moderna, criada para comunicar seu público: pássaros pós-modernos, que se adaptam à contextos de insegurança de morar em uma cidade grande. consigo visualizar tapumes ao redor de uma construção repetindo a frase várias vezes:

pássaros vivem bem. mas eles sabem que podem viver melhor? pássaros vivem bem? mas eles sabem? pássaros vivem bem! pássaros podem viver melhor?



um joão-de-barro constrói uma esfera de aproximadamente 30 centímetros de diâmetro, com paredes de 5 centímetros de espessura. seus ninhos possuem dois compartimentos. com uma breve pesquisa consigo encontrar outros tipos de ninhos de espécies de pássaros com características tão únicas quanto. a arquitetura, historicamente, já adotou técnicas vernaculares inspiradas em ninhos de pássaros.

para le corbusier, a "máquina de morar" deveria ser confortável, esteticamente atraente, lógica, funcional e eficiente, atendendo às necessidades dos ocupantes. me pergunto se o egoísmo é uma característica do arquiteto. quem lhe deu o poder de definir o que uma casa deve ser? meus gatos nunca caçaram um pássaro, mas sabem como. pássaros nascem e instintivamente aprendem a construir ninhos. morar é uma característica inerente ao ser humano, assim como construir sua casa. muito antes da máquina de morar todos os seres moravam. esse protótipo foi apresentado junto a um relato pessoal sobre o meu processo criativo depois de ler o texto "experimental design atmospheres" e iniciar o protótipo. alguns dias depois, perdi o relato. optei, então, por revisitar elementos e situações presentes durante os dias envolvida com o texto e decidi criar um mosaico ilustrado.

(o disco que eu estava ouvindo, meus gatos zelda, sirius e maria bethânia, meu apartamento, praça do meu bairro, uma pintura de um pássaro que eu estava criando, meu avô, que era pedreiro, processo de criação do protótipo e a pintura do pássaro finalizada, que se tornou a capa de uma música)


a casa de pássaros traduz o meu processo criativo, ao mesmo tempo que me mostra como lidar com as imprevisibilidades do cotidiano: tentativas de construir uma maquete "perfeita" até me frustrar com galhos caindo e folhas quebrando e ser modificada pela compreensão de que a natureza é imperfeita e não precisa de imposições humanas. ao apresentar para a turma, a discussão do significado do protótipo foi em torno da fragilidade da segurança, incerteza, prisão, construção de significados a partir da materialização presente na arquitetura, que circula o meu universo e o cuidado presente em criar uma casa de pássaro a partir da preocupação com a segurança dos animais.


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