Amar-Comer-Amar
- Diônifer Alan da Silveira
- 16 de dez. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de jan. de 2023
O segundo protótipo da Atividade Acadêmica de Experimentação em Design Estratégico dialogou parcialmente com o primeiro (arroz-feijão = yin-yang), pois ficou na relação da pessoa com a comida. A relação com o protótipo serviu para interpretar e re-interpretar o texto de Anne-Marie Willis (2006) sobre a projetação ontológica. Inicialmente, o texto foi marcante ao trazer para o campo do design a perspectiva de que o objeto não é simplesmente o outro, diferente de mim, pois somos simultaneamente algo/seres em comum.
Fui entendendo como argumento que o simples ato de projetar também é um processo de transformação do próprio criador e de sua relação com os outros e o mundo. Isso dialoga muito com a leitura e o reconhecimento mais profundo que venho desenvolvendo com o pensamento complexo, desconstituindo o ego para permitir reconstruir-me(nos) mais integrado(s) com o todo.
Ao longo da leitura, ao buscar deixar vir um protótipo que auxiliasse na compreensão do texto, assisti a um episódio de uma série chamada “Sal, gordura, acidez e calor”, em que a Chef Samin Nosrat considera que são estes os quatro elementos fundamentais da boa comida. Diante dessa informação, pensei em elaborar uma experimentação que pudesse influenciar tanto a mim quanto à equipe da Atividade Acadêmica de Experimentação 2022/2. Foi então que comecei a imaginar alguma forma de produzir algo que alimentasse um pouco do corpo e da alma dos colegas.
Um biscoito salgado foi a base para então eu pensar na acidez e na gordura para compor um alimento como protótipo. Comprei uma barra de chocolate e tentei criar na medida certa uma mistura de açúcar de confeiteiro com suco de limão. O calor do microondas foi utilizado para o derretimento do chocolate. Com o chocolate derretido mais a mistura de açúcar e limão, fui compondo uma cobertura em preto e branco dos pequenos biscoitos salgados, compondo um pouco da imagem do Yin-Yang. Após o esfriamento, ambos estavam prontos para serem armazenados e transportados ao encontro presencial.

Como sugestão da forma de apreciar o protótipo, dei a seguinte diretriz: “façam amor!”. Tal provocação se deu, ao perceber na relação que criei com o alimento e o protótipo, pelo alimento ser a base do que somos como matéria. Trabalhando e mantendo o conceito de “amor” como as energias que nos influenciam e influenciamos no cosmos, alimentarmos é um ato de amor. Até mesmo a relação que temos com a boca, os lábios, o nariz e as relações amorosas, como os beijos, os cheiros e as mordidas, são relações similares com os alimentos.
Os colegas compartilharam o quanto que o trabalho artesanal do protótipo parecia realmente relacionar com o meu jeito de ser e tratar os temas e as pessoas, de forma amorosa. O sabor foi um tanto quanto inusitado, mas com algum grau de satisfação palatar. Cabe ressaltar, contudo, que a simples observação e até mesmo experimentação do protótipo não necessariamente gerou convergências entre os colegas, experimentadores. O argumento da projetação ontológica e a minha relação com a comida no dia-a-dia se transformou desde então.
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