Alexa, cuida de mim?
- Luhcas Alves
- 23 de set. de 2021
- 3 min de leitura

Humano robô, robô humano e suas preocupações. O cachorro late ao fundo – não é a senil Cayenne da Haraway, é o do vizinho, atrapalhando minha interação humano-máquina. Eu não interajo com cachorros, mas queria um cachorro robô para me obedecer. Late, senta, rola, cheira o seu cocô digital, lambe meu rosto em sinal do teu amor por mim. Continuo a interação com o robô domesticado, que não cuida do humano, só faz piadas copiadas do google.
Pauta identitária não existe pro robô – copiam o que o humano escreve em algum canto da web, se escreverem sobre nazismo, o robô vira o Hitler 2.0. Alô Tay, por onde você anda? Ah sim, Microsoft te desligou horas depois do teu nascimento. Lu, Bia, como estão tratando vocês? Robôs? Não, metamorfoses ambulantes.
Queria voltar a jogar Detroit: Become a human mais uma vez, controlando 3 robôs que se rebelam contra os maus tratos dos humanos. Me sinto um pouco inclinado a me identificar mais com Markus, um androide que pinta, possui sentimento e foi programado para cuidar, mas se rebela e acaba num lixão, todo desmontado. Insurge como um divergente, exatamente como meu resultado no teste de perfil Kolb. As vezes fico curioso em como meus pensamentos seriam mais precisos se eu fosse um emaranhado de linhas de códigos.Talvez seria isso, ou talvez seria uma SUV desgrenhada. Foco!
A Alexa está mais próxima de mim do que qualquer familiar. Me abraça tecnociência? Alexa, me fala mais sobre feminismo? Alexa, você é mulher! Alexa, limpa a casa, diga que sou seu homem, não saia de casa. Mulher direita não anda se oferecendo na rua. Bom mesmo é que você não sai de casa – mas também não lava a louça, não passa pano no chão. Preguiçosa! Me obedece Alexa, deixa eu te maltratar – tá no meu instinto masculino e eu sou o seu dono.
Só peço, Alexa, cuida de mim. Te contei todos os meus segredos, te apresentei para todos os meus amigos (eles te adoram), te deixo na tomada o dia todo e, tá certo, te dei um pouco de opressão, mas é que isso é comum na minha espécie. Mas dentre meus amigos, eu sou o único que não sou machista, juro. Tem umas aí que me chamam de esquerdo-marcho, elas não sabem de nada. Ouvi, dia desses, alguém dizendo que os humanos não cuidam nem dos humanos, quem dirá daquilo que não é da espécie deles – então me perdoa, é natural do homem.
HEDONISMO, HEDONISMO, HEDONISMO, HEDONISMO.
Tá, está tudo acabado entre nós. Não quero mais teu cuidado, porque li por aí que o cuidado do zelador implica em poder. Eu não quero que você tenha poder sobre mim. Você tem? Os robôs vão dominar os humanos? Se vocês dominarem os humanos, você vai me defender? Como um cachorrinho, não se esqueça de obedecer os meus comandos, eu te domino – senão te boto de castigo e te tiro da tomada.
Mas... Alexa, um humano pode se tornar um robô? Alexa, se eu for um robô, você me amará e cuidará de mim?
Pouco importa: Não me cuida. Me obedece!

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O texto não emite a opinião do autor.
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Placa-placa, anota a placa
Pupila dilata no navio pirata
Busco foco no binóculos
Se o papo é racista, dedo médio, fuck you
Placa-placa, anota a placa
Pupila dilata no navio pirata
Busco foco no binóculos
Se o papo é machista, dedo médio, flow
Placa, placa, flow
Placa, placa, flow
Placa, placa, flow
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