"A tecnologia não é boa nem má; tampouco é neutra."
- helena agra
- 23 de set. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de set. de 2021
Navegue no protótipo ouvindo esta música.
Se a tecnologia não é boa ou ruim, ela tampouco é neutra, como diz a segunda lei da tecnologia do historiador americano Melvin Kranzberg, que ficou famoso pelas suas 6 leis da tecnologia. No nosso protótipo, procuramos explorar o impacto das tecnologias que compõem o núcleo dos filtros empregados em mídias sociais (que reúnem inteligências artificiais diversas) sobre a percepção da auto-imagem.
Toda tecnologia tem consequências. O próprio ato de tirar selfies - ontologicamente, uma tecnologia que se transformou em nós, nós somos ela - matou 260 pessoas em 6 anos.
Agora, além de selfies, o que a tecnologia dos filtros carrega como impacto e consequência? Esta é uma tecnologia desenvolvida por uma ótica de questões de cuidado - ou apenas questões de fato, que não produzem relações?
Filtros alteram a percepção de auto-imagem - não são tecnologias neutras, não posicionadas. Na verdade, carregam todos os vieses, experiências e expectativas de seus desenvolvedores. Todos eles são situados.
Por que precisamos mostrar ao mundo uma versão não real de nós mesmos? O que acontece quando toda a nossa interação é mediada pela tecnologia: como se vêem pela primeira vez os novos casais formados pelo Tinder? Os novos amigos que se conheceram pelo Teams?
A Consumoteca, consultoria especializada em direcionar negócios através de um olhar antropológico, propõe um interessante questionamento a respeito da glamourização de procedimentos estéticos. As mídias sociais, num passo além dos filtros, vêm ampliando a exposição de antes e depois de cirurgias plásticas - como se fossem procedimentos banais, pontuais, sem dor e sem grandes consequências. Um exemplo bem gaúcho e recente é o post da influenciadora Patti Leivas a respeito da sua blefaroplastia, que tem cerca de 4 vezes mais curtidas e 5 vezes mais comentários do que postagens realizadas próximas a esta.
No dia 19 de setembro de 2021, após termos convivido online por cerca de 6 meses, as integrantes deste grupo se conheceram pela primeira vez. Helena e Cristina já tinham se visto antes em junho, porém Marina não tinha sido vista ou visto nenhuma das duas. Aqui vão as nossas impressões iniciais:
Cristina: Eu achava que a Marina tinha um rosto bem mais fino e era MUITO mais loira. hahaha. Achava que ela era mais magra também. Eu achava que a Helena era mais alta e menos magra. Achava que a pele dela era algo tipo de porcelana.
Helena: Antes de conhecer a Cris pessoalmente eu imaginei que ela parecesse mais velha. Também esperei encontrar uma mulher grande, alta e gorda. A Marina eu imaginei que fosse BEM MAIS LOIRA, com olhos e pele mais claros também. Além disso, eu achei que ela era baixinha, só um pouco maior que eu (haha), e que fosse gorda também.
Marina: Desde que conheci Cris e Hele nas miniaturas das câmeras das salas de aulas virtuais, acho que nunca tinha refletido em como elas seriam pessoalmente, e pra mim foi muito natural conhecê-las pessoalmente sem ter expectativas de como elas seriam, e isto não me causou nenhum impacto, pareciam as mesmas pessoas de sempre, com as vozes de sempre, porém em corpos que eu nunca tinha visto. :)
Nosso protótipo é o início de uma exploração sobre o status quo dos filtros e traz um questionamento sobre embelezamento. Percebeu? No futuro, podemos continuar explorando a criação de filtros - será que são necessários? - que entreguem quem somos de verdade.
Por Cristina Leonhardt, Helena Agra e Marina Blum
Inspirado por: PUIG DE LA BELLACASA, M. (2011). Matters of care in technoscience: Assembling neglected things. Social Studies of Science, 41(1), 85–106.
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