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PLURIVERSO Epistemologia: Situar no território e na pesquisa em Design Estratégico Cartografia pluriversal da Acadêmicos da Orgia

RESUMO

Este dossiê aplica a epistemologia do pluriverso, de Arturo Escobar, à leitura da quadra da escola de samba Acadêmicos da Orgia, em Porto Alegre. Adotando o pluriverso como “chapéu epistemológico” de trabalho, o grupo problematizou como uma escola de samba pode ser compreendida não como objeto único, mas como encontro de múltiplos mundos, samba, mobilidade, meio ambiente, mercado imobiliário, publicidade, comunidade e universidade que convivem e disputam o mesmo espaço. A partir de imersão em campo, leitura teórica (Escobar; Osório; De Angelis; Bollier; Simas) e da proposição de um método próprio, a Cartografia Pluriversal do Território, construiu-se uma maquete tátil como instrumento de investigação, síntese e encenação pública do conhecimento. Os resultados evidenciam que cartografar é sempre um ato interpretativo, e que a disputa pelo tombamento da quadra revela o território como campo ativo de coexistência e conflito entre ontologias.

Palavras-chave: pluriverso; design ontológico; território; cartografia pluriversal; escola de samba.



INTRODUÇÃO


Compreensão do chapéu - fundamentação


A atividade dos Chapéus Epistemológicos propõe que diferentes grupos de uma mesma turma interpretem um único briefing de pesquisa a partir de lentes teóricas distintas, evidenciando como a escolha epistemológica direciona o que se vê, o que se pergunta e o que se produz como conhecimento. Ao grupo coube o chapéu do Pluriverso, fundamentado sobretudo na obra de Arturo Escobar, Designs for the Pluriverse, que propõe superar o que o autor chama de “mundo-um” (one-world world) a suposição moderna de que existe uma única realidade objetiva à qual todas as culturas devem se ajustar em favor do reconhecimento de múltiplas ontologias, cosmovisões e modos de fazer mundo, que coexistem sem hierarquia entre si (ESCOBAR, 2018).


Relação com a pesquisa em Design Estratégico


O pluriverso desloca o papel de quem pesquisa em Design Estratégico: em vez de intérprete que lê o território e sintetiza, de fora, uma verdade autoral sobre ele, o pesquisador passa a atuar como criador de condições para que os próprios mundos do território se revelem. Essa mudança de postura é central para a proposta metodológica deste trabalho, que assume a pesquisa como mediação e não como autoria exclusiva.

Situação-problema-briefing e o chapéu


O briefing geral da disciplina propôs a investigação do Território do Samba de Porto Alegre/RS como campo empírico comum a todos os grupos, cada qual operando com um chapéu epistemológico distinto. Esse desenho de atividade permite comparar, ao final, como diferentes epistemologias produzem leituras diferentes de um mesmo território, evidenciando que não existe uma descrição neutra ou definitiva de um lugar.


Situação-problema definida pelo grupo


A partir do chapéu do pluriverso, o grupo formulou a seguinte pergunta de pesquisa: como relacionar pluriverso com território a partir de uma escola de samba? A pergunta foi deliberadamente aberta, coerente com a postura pluriversal de não partir de uma resposta pronta, mas de um convite à escuta do território.


Objetivo definido para o projeto do grupo


O objetivo do projeto foi desenvolver e testar em campo um método de cartografia pluriversal capaz de tornar visíveis os múltiplos mundos que coexistem no território da escola de samba Acadêmicos da Orgia, sintetizando essa leitura em um artefato tridimensional construído coletivamente e apresentado publicamente por meio de uma encenação processual.



DESENVOLVIMENTO


Pilares epistemológicos definidos


O trabalho se apoia em quatro pilares complementares.

●        Pluriverso (Escobar): crítica ao “mundo-um” e proposta do “turno ontológico”, segundo o qual o território deixa de ser um cenário único a descrever e passa a ser composto por múltiplos mundos em disputa e coexistência. O pilar também questiona métricas de desenvolvimento como PIB, IDH e ODS, que colocam civilizações distintas na mesma régua, tratando um caminho  o do Norte Global - como o único possível (ESCOBAR, 2018; SILVA, 2023).

●        Design ontológico e autonomia: todo projeto produz um modo de existir; o design convencional parte de um problema definido de fora e busca soluções replicáveis e universais, enquanto o design autônomo parte do desejo e do sentido da própria comunidade, cabendo ao designer o papel de mediador, não de autor único (ESCOBAR, 2018 apud SILVA, 2023).

●        Bens comuns - commons, commoners, commoning: o bem comum é lido como sistema social de três partes inseparáveis  o recurso partilhado (a quadra, a memória, os rituais e o repertório da escola de samba), a comunidade que o cuida e é cuidada por ele (sambistas, moradores, frequentadores) e a práxis coletiva que o reproduz geração após geração (ensaios, desfiles, rodas de samba) (DE ANGELIS, 2017; BOLLIER, 2015).

●        Design Estratégico como criação de condições: desloca o designer da posição de intérprete que traduz o território em síntese autoral para a de agente que constrói dispositivos  como a maquete - que permitem que os próprios mundos do território se revelem.


Implicações dos pilares da pesquisa em Design e dos devires da práxis em Design Estratégico


Tomados em conjunto, esses pilares implicam que a práxis do Design Estratégico, ao lidar com territórios pluriversais, não pode se limitar a descrever ou representar; precisa desenhar dispositivos que permitam que a comunidade pesquisada os commoners participe da produção do conhecimento sobre si mesma. O devir da práxis, portanto, é o de um design que se autocoloca como mediador de relações, e não como autor de sínteses fechadas, deslocando a autoridade interpretativa do pesquisador para o próprio território em ato.


Proposição do método avançado

Originalidade e diferencial do método


A contribuição original do grupo, para além da aplicação direta de Escobar, foi a proposição da Cartografia Pluriversal do Território: um método próprio, testado em campo na Acadêmicos da Orgia, organizado em seis etapas não lineares, em que novas perguntas reposicionam os mundos identificados em ciclos de discussão coletiva antes da síntese final.


Desenho de visão geral do método


  1. Imersão visita, caminhada e observação do território.

  2. Leitura sensível , mapeamento de pessoas, objetos, sons, símbolos e fluxos presentes.

  3. Mapeamento das ontologias , identificação de quem produz sentido no território e de cada “mundo” presente.

  4. Conflitos , identificação de onde os mundos colidem: quem ocupa mais espaço, quem invisibiliza quem.

  5. Convivências , identificação de onde os mundos coexistem sem se anular.

  6. Síntese , construção da maquete, entendida não como apresentação final, mas como instrumento de pesquisa.


Procedimentos de coleta, análise e síntese de dados ou vivências


Como procedimento de coleta, o grupo realizou uma visita de campo à quadra da Acadêmicos da Orgia, complementada por pesquisa documental (reportagens, exposição Corredor do Samba, processo de tombamento). Como procedimento de análise, os elementos coletados foram organizados por “mundo” de pertencimento. Como procedimento de síntese, cada mundo foi materializado na maquete por meio de pinos coloridos posicionados sobre uma base impressa em 3D do entorno da quadra, conectados por fios que tornam visível a rede de relações entre eles , cumprindo simultaneamente três funções: investigação durante o método, síntese visual nos resultados, e inovação metodológica em si, já que a própria construção coletiva do artefato já produz conhecimento, não apenas o comunica.


RESULTADOS E DISCUSSÃO


Flutuações e insights iniciais


O primeiro insight de campo veio do próprio suporte físico do território: o registro fotográfico da fachada da quadra em 2011, 2016 e 2025 mostra sucessivas repinturas e mudanças de sinalização, sinal de que o território é feito e refeito, nunca um dado fixo. Cartografar essa transformação já se revelou, em si, uma escolha epistemológica, o grupo passou a entender o mapeamento não como registro de um objeto estável, mas como acompanhamento de um processo em curso.


Incidências, evidências e descobertas da visita de campo


A Acadêmicos da Orgia integra uma rede maior de territórios negros ligados ao Arroio Dilúvio , Areal da Baronesa, Ilhota, Colônia Africana , de onde nasceram as raízes do samba porto-alegrense, hoje mapeadas pela exposição Corredor do Samba, com curadoria de Sátira Machado (PUCRS, INSTITUTO DE CULTURA, 2024). O sambista Nêgo Izolino, um dos pilares do samba gaúcho, iniciou sua carreira no Carnaval em 1985 compondo justamente para essa escola. Em 2023, a escola e o Instituto Oliveira Silveira solicitaram ao CAU-RS o tombamento da quadra , uma disputa ativa pela permanência do território que atravessou toda a leitura de campo do grupo (NONADA JORNALISMO, 2024).


Descrição dos elementos coletados


O mapeamento de campo identificou sete mundos coexistindo no mesmo território, cada um com lógica e tempo próprios, cruzando-se sem se anular: Mundo do Samba, Mundo da Mobilidade, Mundo Acadêmico, Mundo Ambiental, Mundo Imobiliário, Mundo Publicitário e Mundo Comunitário. O samba foi a porta de entrada da pesquisa, mas o grupo optou deliberadamente por não posicioná-lo em um centro hierárquico da maquete: ele é um mundo entre outros, em tensão e convivência com os demais.


Análise da coleta


A leitura por conflitos evidenciou tensões entre o Mundo Imobiliário e o Mundo Comunitário/do Samba , sobretudo diante da valorização do entorno e da pressão por uso do solo, que colocam em risco a permanência da quadra, motivando o próprio pedido de tombamento. Já a leitura por convivências revelou articulações menos visíveis, como a relação entre o Mundo Ambiental (o Arroio Dilúvio e seu corredor ecológico) e o Mundo do Samba, historicamente assentado ao longo desse mesmo curso d’água, ou entre o Mundo Acadêmico - representado pela própria pesquisa universitária e pela exposição Corredor do Samba - e o Mundo Comunitário, que juntos produzem documentação e visibilidade para a disputa pela permanência do território.


Síntese da coleta


A síntese do método resultou em uma maquete tátil na qual pinos coloridos, um para cada mundo, foram posicionados sobre a base impressa do entorno da quadra e conectados por fios vermelhos que tornam visível a rede de relações do território. A professora Débora propôs uma encenação para a apresentação pública do artefato: em vez de mostrar a maquete pronta, o público veria primeiro apenas a base vazia, e os elementos, escola de samba, arroio, comércio, praça, escola , seriam posicionados um a um, conectados por fios, conforme o método fosse explicado. Dessa forma, o público acompanharia a construção da interpretação em tempo real, testemunhando um processo em vez de receber apenas um resultado fechado.


Discussão dos achados com a literatura


Essa encenação traduz, na prática, a tese central do pluriverso: o conhecimento não estava dado antes da maquete, mas foi produzido enquanto o território era cartografado , as relações não são descobertas, são construídas no ato de mapear. Ao contrário do mapa tradicional, que pressupõe um território já existente a ser registrado com a maior fidelidade possível, a cartografia pluriversal assume que o próprio ato de mapear seleciona, hierarquiza e relaciona, e portanto também cria o território que descreve; quem decide o que entra no mapa decide, em certa medida, que mundos são reconhecidos como existentes. Essa cartografia performativa, e não representacional, dialoga diretamente com a crítica de Escobar (2018) ao “mundo-um” e com a leitura de bens comuns de De Angelis (2017) e Bollier (2015), para quem o comum só existe enquanto praticado (commoning). Ecoa também a síntese de Simas (2018, p. 118), para quem o Novo Mundo é “inventado cotidianamente na produção da vida enquanto possibilidade”, sendo compreendido como uma encruzilhada.


CONTRIBUIÇÕES FINAIS, APRENDIZAGEM E FUTUROS


Contribuição do método à pesquisa em Design Estratégico


A Cartografia Pluriversal do Território oferece ao Design Estratégico um dispositivo replicável para deslocar o pesquisador da posição de intérprete para a de criador de condições, demonstrando de forma concreta como um artefato físico , e sua encenação ao vivo pode operacionalizar, na prática projetual, um compromisso epistemológico com o pluriverso.


Contribuições dos achados para o território


Ao evidenciar os sete mundos em disputa e convivência na quadra da Acadêmicos da Orgia, e ao documentar a transformação da fachada entre 2011 e 2025, o trabalho produz material que pode reforçar, com outro tipo de evidência visual e relacional , o pedido de tombamento movido pela escola e pelo Instituto Oliveira Silveira junto ao CAU-RS.


Limitações dos achados


O trabalho baseou-se em uma única visita de campo e em pesquisa documental complementar, o que limita a profundidade do vínculo com a comunidade. Os sete mundos foram nomeados pelo grupo pesquisador, e não necessariamente correspondem às categorias êmicas com que os próprios sambistas e moradores nomeariam seu território. A maquete, embora concebida como dispositivo de escuta, ainda foi construída por pesquisadores externos à comunidade, o que é uma tensão reconhecida pelo próprio referencial do design autônomo adotado.


Relação do chapéu (proximidade e distância) com os demais


O chapéu do pluriverso aproxima-se de leituras relacionais e etnográficas do território, e de chapéus epistemológicos orientados por perspectivas decoloniais ou de design ontológico, com os quais compartilha a recusa a uma síntese universal fechada. Distancia-se, por outro lado, de chapéis apoiados em métricas quantitativas ou em modelos de gestão e inovação de vocação universalizante, justamente por recusar tratar o território como um problema único a ser resolvido por uma solução replicável.


Perspectivas de futuros para o território e o método avançado


Como desdobramentos, o grupo aponta a possibilidade de estender a Cartografia Pluriversal a outros territórios da rede mapeada pelo Corredor do Samba (Areal da Baronesa, Ilhota, Colônia Africana), aprofundar a construção participativa da maquete com sambistas e moradores como coautores, e explorar uma versão digital e interativa do artefato, capaz de registrar novas camadas de relação ao longo do tempo.


Aprendizagem do grupo e contribuições para a disciplina

A experiência evidenciou, na prática, que epistemologia não é abstração: ela se manifesta em como se cartografa um território. Para o grupo, a Acadêmicos da Orgia deixou de ser uma curiosidade cultural para se tornar um mundo entre mundos, com forma própria de saber e de fazer; cartografar com cuidado significa reconhecer essa pluralidade, e não domesticá-la sob uma única narrativa.


REFERÊNCIAS


BOLLIER, David. Think Like a Commoner: A Short Introduction to the Life of the Commons. Gabriola Island: New Society Publishers, 2015. [dados bibliográficos a confirmar pelos autores]

DE ANGELIS, Massimo. Omnia Sunt Communia: On the Commons and the Transformation to Postcapitalism. London: Zed Books, 2017.

ESCOBAR, Arturo. Designs for the Pluriverse: radical interdependence, autonomy, and the making of worlds. Durham: Duke University Press, 2018.

NONADA JORNALISMO. [Título da matéria sobre o pedido de tombamento da Acadêmicos da Orgia]. Porto Alegre, 2024. Disponível em: [inserir link]. Acesso em: [inserir data].

OSÓRIO, Lucas. [Título da dissertação]. Dissertação (Mestrado em Design) - Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2023.

PUCRS. INSTITUTO DE CULTURA. Corredor do Samba: [subtítulo da exposição]. Curadoria de Sátira Machado. Porto Alegre, 2024.


NOTA FINAL


Programa: PPGDesign | Unisinos

Disciplina: Métodos Avançados de Pesquisa em Design

Briefing: Território do Samba de Porto Alegre/RS

Atividade: 6 Chapéus Epistemológicos e a Pesquisa em Design Estratégico

Professores: Dra. Debora Barauna e Dr. Tiago Ricciardi Correa Lopes

Semestre: 2026-1

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