FEMINISMO: A Cartografia do Cuidado no Território do Samba
- EXPemDE

- 15 de jul.
- 12 min de leitura
Carolina Ferreira Niederauer
Maria Inês Bitencourt Melo
Minéia Fernanda Zambiasi
Resumo:
O texto apresenta a Cartografia do Cuidado como um dispositivo de mediação territorial fundamentado na epistemologia feminista. Questionando a neutralidade universal do saber, a proposta adota o conceito de "conhecimentos situados" de Donna Haraway, compreendendo que o território é continuamente construído pelas experiências, práticas cotidianas e memórias de quem o habita. No contexto do Território do Samba, a metodologia busca dar visibilidade a saberes e redes de cuidado historicamente invisibilizadas, especialmente o trabalho de mulheres e grupos marginalizados. Nesse cenário, o papel do designer se transforma: ele deixa a posição de especialista tradicional para atuar como um mediador. Como resultado, propõe-se um dispositivo de mediação territorial capaz de favorecer a explicitação de conhecimentos situados e fortalecer a inteligência territorial.
Palavras-chave: Cartografia do Cuidado, Epistemologia Feminista, Conhecimentos Situados, Mediação Territorial, Território do Samba.
INTRODUÇÃO
A fundamentação deste trabalho estrutura-se a partir da epistemologia feminista, que questiona a premissa de um conhecimento neutro, universal e descolado da realidade. Apoiando-se no conceito de "conhecimentos situados", compreende-se que todo saber é produzido a partir de posições específicas, atravessado pelas experiências vividas e pelas relações sociais dos sujeitos. Sob essa ótica, diferentes pessoas produzem compreensões diversas sobre o mesmo espaço, e nenhuma perspectiva isolada é capaz de representar a totalidade da realidade. Memórias, práticas cotidianas e, sobretudo, as práticas de cuidado não são apenas ações de manutenção da vida, mas constituem formas legítimas e fundamentais de conhecimento sobre o mundo.
Nessa perspectiva epistemológica, o papel da pesquisa e da prática em Design Estratégico sofre uma profunda transformação. O designer deixa de atuar como o "especialista" externo, responsável por interpretar a realidade de forma distanciada e prescrever soluções prontas para a comunidade. Em vez disso, o designer assume a função de mediador. A pesquisa em design passa a focar no projeto de dispositivos e interfaces capazes de favorecer o encontro, o diálogo e a articulação entre diferentes saberes. A construção coletiva torna-se o método para ampliar a capacidade de compreender a complexidade do território, criando condições para que os próprios sujeitos produzam conhecimentos compartilhados.
Aplicando esse "chapéu" teórico à realidade, o contexto de estudo é o Território do Samba. A sustentação cotidiana das escolas de samba, a organização comunitária e a transmissão de saberes dependem intrinsecamente de redes e práticas de cuidado. Um território não é apenas um espaço físico, mas é continuamente produzido pelas experiências de quem o habita. Contudo, percebe-se que as dinâmicas de cuidado que mantêm esse território vivo — frequentemente protagonizadas por mulheres e outros sujeitos historicamente marginalizados — permanecem em grande parte invisibilizadas, não sendo devidamente reconhecidas como elementos centrais e estruturantes para a existência e continuidade daquele espaço.
A problematização central do grupo reside na constatação de que a invisibilidade do trabalho cotidiano de cuidado no Território do Samba enfraquece o reconhecimento dos saberes locais e limita a compreensão integral das relações que sustentam a comunidade. Sem reconhecer esses "conhecimentos situados", perde-se a oportunidade de fortalecer a autonomia e a inteligência do próprio território. A partir dessa tensão, define-se a seguinte Questão de Pesquisa: Como o Design Estratégico pode atuar na mediação territorial para tornar visíveis os conhecimentos situados e as práticas de cuidado que sustentam o Território do Samba, sem tentar representá-lo de forma impositiva ou puramente objetiva?
Para responder a essa questão, o objetivo principal do projeto foi desenvolver a Cartografia do Cuidado: um dispositivo de mediação desenhado pelo grupo. Este dispositivo não buscou mapear ou representar objetivamente o Território do Samba, nem ensinar à comunidade quais são seus problemas. O propósito central da Cartografia do Cuidado foi criar condições metodológicas e visuais para que a própria comunidade produza, articule e compartilhe seus conhecimentos situados, fortalecendo sua capacidade coletiva de compreender, valorizar e transformar o território a partir das práticas de cuidado já existentes.
DESENVOLVIMENTO
A Cartografia do Cuidado fundamenta-se na epistemologia feminista e na compreensão de que conhecer um território significa reconhecer a pluralidade de experiências que o constituem. A proposta é orientada por cinco pilares epistemológicos que fundamentam a compreensão do problema, a atuação do designer e a construção do método proposto.
Pilar epistemológico | Implicação para o método |
Conhecimentos situados | O território é compreendido a partir de múltiplas perspectivas, sem buscar uma única representação objetiva. |
Objetividade posicionada | O pesquisador reconhece que sua atuação é situada e compreende que todo conhecimento é parcial e contextual. |
Produção coletiva do conhecimento | O conhecimento emerge do diálogo entre os participantes durante a cartografia e o baralho. |
Reconhecimento de saberes invisibilizados | O método busca explicitar práticas de cuidado, organização e mobilização que normalmente permanecem pouco legitimadas. |
Designer como mediador | O designer projeta dispositivos que favorecem o diálogo, a construção compartilhada de sentidos e a articulação entre diferentes saberes. |
Fonte: Elaborada pelas Autoras.
Inspirada na noção de conhecimentos situados, proposta por Donna Haraway (1995), a Cartografia do Cuidado parte do princípio de que o conhecimento não é produzido por um observador neutro, mas emerge das relações estabelecidas entre sujeitos, contextos e práticas sociais. Assumimos, portanto, uma posição situada diante do Território do Samba, reconhecendo que nossa leitura é parcial e atravessada pelas experiências construídas durante a pesquisa. Em vez de buscar uma verdade universal sobre o território, compreendemos que diferentes sujeitos produzem conhecimentos a partir dos lugares que ocupam, sendo a articulação dessas perspectivas o que amplia sua compreensão coletiva.
Essa perspectiva desloca o foco da pesquisa dos diagnósticos objetivos para a construção compartilhada de interpretações. A investigação procura compreender quais conhecimentos são produzidos sobre o território por diferentes sujeitos e por que alguns deles permanecem invisibilizados. O conhecimento é entendido como um processo relacional, construído por experiências, memórias e práticas cotidianas que orientam a forma como a comunidade percebe, organiza e sustenta seu território.
No contexto do Território do Samba, essa abordagem evidencia que a continuidade da escola de samba depende de uma extensa rede de práticas de cuidado, organização e mobilização comunitária. Essas atividades sustentam a vida do território e produzem conhecimentos fundamentais para sua permanência, embora raramente sejam reconhecidas como formas legítimas de inteligência territorial.
Essa compreensão dialoga diretamente com o Design Estratégico ao reposicionar o papel do designer como mediador dos processos de construção coletiva de conhecimento. Sua atuação concentra-se na criação de dispositivos que favorecem o diálogo, a explicitação de diferentes perspectivas e a articulação de sentidos compartilhados. O conhecimento passa a ser produzido com a comunidade, a partir das relações estabelecidas entre os participantes, e não exclusivamente pela interpretação do pesquisador.
O método também incorpora a experimentação como princípio projetual. Sua estrutura permanece aberta a adaptações ao longo da aplicação, permitindo que novas narrativas, conexões e questões surjam conforme a interação entre os participantes. Dessa forma, o processo fortalece a capacidade da comunidade de reconhecer seus próprios recursos, articular conhecimentos e construir caminhos de atuação coerentes com sua realidade.
Sob essa perspectiva, a pesquisa em Design Estratégico compreende o território como um espaço vivo de produção coletiva de conhecimento. Esse deslocamento aproxima-se dos devires da práxis em Design Estratégico (Baraúna, 2025), ao compreender o projeto como um processo relacional, aberto à experimentação e à construção compartilhada de futuros possíveis. Como resultado, a inteligência territorial deixa de ser entendida como um recurso previamente existente e passa a ser compreendida como uma capacidade construída continuamente pelas relações, práticas e conhecimentos produzidos pela própria comunidade.
PROPOSIÇÃO DO MÉTODO AVANÇADO
A Cartografia do Cuidado foi desenvolvida como um dispositivo metodológico destinado a favorecer a produção e a articulação de conhecimentos situados sobre o Território do Samba. Sua concepção resulta da articulação entre a epistemologia feminista, a cartografia participativa e o Design Estratégico, reunindo essas contribuições em um método voltado ao reconhecimento de saberes historicamente invisibilizados. Em contraste com metodologias tradicionais de cartografia, orientadas pela representação do território, a Cartografia do Cuidado organiza processos de diálogo que permitem aos participantes compartilhar experiências, reconhecer práticas de cuidado e construir interpretações coletivas sobre a vida comunitária. Para isso, o método reúne três dispositivos de mediação complementares: o mapa do território, o baralho de saberes situados e materiais de apoio, como post-its, canetas e fios de lã.

O mapa registra relações, lugares, pessoas e práticas consideradas significativas pelos participantes, revelando como o território é continuamente produzido pelas interações entre seus integrantes.

O baralho amplia essa construção ao propor perguntas organizadas em eixos relacionados às perspectivas sobre o território, aos conhecimentos produzidos nas práticas cotidianas, às relações de cuidado, às invisibilidades e às possibilidades de fortalecimento coletivo. As perguntas estimulam conversas que ampliam as interpretações construídas durante a atividade. Ao longo do processo, mapa e baralho retroalimentam-se continuamente. Novas narrativas geram novos registros, que enriquecem a cartografia e tornam visíveis redes de confiança, formas de organização comunitária, pessoas articuladoras e conhecimentos produzidos pela experiência cotidiana. Todo esse conhecimento é construído coletivamente durante as interações entre os participantes. Na etapa seguinte, as capacidades identificadas são relacionadas às tensões percebidas no território. A comunidade é convidada a formular hipóteses de ação apoiadas nos recursos que já possui, fortalecendo sua capacidade de reconhecer, mobilizar e conectar saberes locais. O processo estimula aprendizagens contínuas e incentiva a construção coletiva de possibilidades de atuação.

Como síntese, propõe-se um framework de autogestão territorial que registra relações, capacidades, práticas de cuidado e oportunidades de ação identificadas durante a cartografia. Esse framework constitui uma memória coletiva capaz de apoiar novos processos de diálogo, aprendizagem e tomada de decisão. A principal inovação do método está na compreensão da cartografia como um dispositivo de mediação territorial. A Cartografia do Cuidado promove a produção coletiva de conhecimentos situados, torna visíveis práticas historicamente invisibilizadas e fortalece a inteligência territorial da comunidade. Ao criar condições para que os próprios participantes reconheçam e mobilizem seus saberes, o método contribui para ampliar a autonomia da comunidade na condução de seus processos de reflexão e autogestão, sem necessitar de um agente externo.

RESULTADO E DISCUSSÃO
A principal evidência produzida durante a visita de campo foi a identificação de uma dissonância entre os conhecimentos socialmente reconhecidos no Território do Samba e aqueles efetivamente responsáveis por sua sustentação cotidiana. Embora a escola seja amplamente identificada por suas lideranças históricas e por sua produção cultural ligada ao carnaval, observou-se que sua permanência ao longo do ano depende de uma extensa rede de práticas de organização, cuidado e mobilização desenvolvidas por diferentes integrantes da comunidade. Essas práticas incluem a organização de eventos para arrecadação de recursos, a manutenção da infraestrutura da escola, a articulação de voluntários, a preservação das relações comunitárias, a negociação de parcerias e a transmissão cotidiana de conhecimentos. Apesar de seu caráter estratégico, elas costumam permanecer associadas ao trabalho de bastidores e raramente são reconhecidas como formas legítimas de inteligência territorial. Essa constatação reforça a contribuição da epistemologia feminista para a compreensão do território, reforçando que diferentes formas de conhecimento coexistem na comunidade, embora nem todas recebam o mesmo reconhecimento. A invisibilização observada não decorre da ausência dessas práticas, mas da maneira como determinados saberes são historicamente legitimados em detrimento de outros.

Durante a visita de campo ao Território do Samba, a dissociação entre os saberes historicamente reconhecidos e a verdadeira inteligência territorial que sustenta a comunidade tornou-se palpável ao observar a atual gestão da Acadêmicos da Orgia. Embora o legado e a memória da escola sejam frequentemente associados a grandes baluartes masculinos, como a figura histórica do Mestre Darcy Soares Gonçalves, a vitalidade e a sobrevivência da instituição ao longo do ano ancoram-se na liderança estratégica de mulheres como a Sra. Jussara, sua esposa e atual presidente, e sua filha Débora, diretora de marketing. As extensas práticas de cuidado, articulação comunitária e captação de recursos conduzidas por elas materializam a crítica da epistemologia feminista, de que o que o senso comum invisibiliza como mero "trabalho de bastidores" é, na realidade, o conhecimento central e a rede de mobilização que mantém a escola viva para além do espetáculo do carnaval.


Em retrospectiva, avaliamos que teria sido de imenso valor analítico ter incluído a Escola Estadual São Francisco de Assis em nosso roteiro de campo. Esse espaço nos proporcionaria o diálogo com lideranças femininas diárias e fundamentais para o território: as professoras, a diretora e, de forma muito especial, as "tias da cozinha". Escutar essas mulheres permitiria aprofundar nossa compreensão sobre o peso do trabalho de cuidado e de educação que estrutura e nutre a comunidade. Essa aproximação evidenciaria uma verdade essencial do próprio território, de que o samba não se faz apenas com o som da bateria que atrai os holofotes, mas depende visceralmente da sua "cozinha", o alicerce invisibilizado de trabalho coletivo, afeto e sustentação cotidiana sem o qual a cultura não sobrevive.

Nesse contexto, a Cartografia do Cuidado apresenta-se como uma alternativa às abordagens tradicionais de diagnóstico territorial, favorecendo a explicitação das relações que produzem e sustentam a vida coletiva. Ao criar condições para que diferentes sujeitos compartilhem suas experiências, o dispositivo amplia a capacidade da comunidade de reconhecer conhecimentos anteriormente dispersos ou invisibilizados. A principal contribuição do método reside na construção de um processo de mediação que fortalece a inteligência territorial. O mapa atua como suporte para o diálogo, o baralho auxilia o grupo na reflexão, e o framework final constitui uma memória coletiva construída pela própria comunidade que auxilia na tomada de decisão para ações futuras.
Sob essa perspectiva, o processo metodológico também redefine a atuação do designer, que cria condições para que conhecimentos situados possam emergir, ser compartilhados e contribuir para a construção coletiva de possibilidades de ação. Os resultados obtidos sugerem que a epistemologia feminista oferece contribuições relevantes para a Pesquisa em Design Estratégico ao ampliar a compreensão sobre quem produz conhecimento, quais saberes participam dos processos de projeto e como dispositivos de mediação podem fortalecer processos coletivos de reflexão e decisão. A Cartografia do Cuidado apresenta uma mudança de perspectiva sobre o próprio ato de conhecer o território.
CONTRIBUIÇÕES FINAIS, APRENDIZAGEM E FUTUROS
A Cartografia do Cuidado demonstra que a epistemologia feminista pode contribuir para o desenvolvimento de métodos em Design Estratégico ao deslocar o foco da representação objetiva do território para a produção coletiva de conhecimentos situados. Ao reconhecer que diferentes sujeitos produzem diferentes compreensões sobre a realidade, o método amplia a capacidade de identificar práticas, relações e saberes que frequentemente permanecem invisibilizados em abordagens tradicionais de diagnóstico territorial. Sua principal contribuição para o Design Estratégico consiste na proposição de um dispositivo de mediação que fortalece processos de aprendizagem coletiva, reflexão compartilhada e inteligência territorial. O método cria condições para que a própria comunidade reconheça capacidades existentes, articule conhecimentos produzidos em suas experiências e construa possibilidades de ação fundamentadas em seus próprios recursos e relações.
Para o Território do Samba, a proposta contribui ao tornar visíveis práticas de cuidado, formas de organização comunitária e conhecimentos produzidos cotidianamente por seus participantes. O framework de autogestão territorial resultante da cartografia constitui uma memória coletiva que pode apoiar futuras decisões e fortalecer processos de mobilização comunitária. Entretanto, esta pesquisa apresenta limitações. O método foi desenvolvido e prototipado a partir de uma experiência específica, não permitindo generalizações sobre outros territórios ou contextos comunitários antes de ser testado. Além disso, sua efetividade depende da participação ativa dos sujeitos envolvidos e da continuidade dos processos de mediação, aspectos que não puderam ser acompanhados.
O quadro relacional a seguir apresenta uma análise comparativa entre a epistemologia feminista e outras epistemologias contemporâneas, evidenciando seus principais pontos de convergência e divergência. A organização segue uma ordem de proximidade conceitual, partindo das epistemologias que compartilham maior afinidade com a perspectiva feminista até aquelas que apresentam maiores distanciamentos.
Episteme | Como entende o conhecimento | Aproximação com a Epistemologia Feminista | Principais diferenças |
Pluriverso | O conhecimento é múltiplo, situado e coexistem diferentes formas legítimas de conhecer. | Compartilha a crítica ao universalismo, valoriza saberes marginalizados, diversidade epistemológica, diálogo entre mundos e rejeição da neutralidade. | O pluriverso nem sempre discute explicitamente gênero, poder patriarcal ou desigualdades de gênero. |
Ancestralidade | O conhecimento é transmitido pelas relações entre gerações, memória, tradição, espiritualidade e comunidade. | Valoriza conhecimentos invisibilizados, oralidade, experiência coletiva, cuidado e pertencimento. | Pode manter estruturas tradicionais que nem sempre questionam relações de gênero; depende do contexto cultural. |
Biocentrismo | O conhecimento deve reconhecer a interdependência entre todas as formas de vida, deslocando o humano do centro. | Aproxima-se na crítica ao antropocentrismo, na ética do cuidado, na interdependência e na valorização das relações. | O foco está na relação humano-natureza, não necessariamente nas relações de poder entre sujeitos humanos. |
Empirismo | O conhecimento deriva principalmente da observação, experimentação e evidências verificáveis. | A epistemologia feminista não rejeita evidências empíricas; utiliza pesquisa empírica situada e reconhece a experiência como fonte válida de conhecimento. | O empirismo clássico tende a defender objetividade neutra e universal, enquanto a epistemologia feminista critica essa neutralidade e enfatiza a posição do pesquisador. |
Algoritmos (Data-driven) | O conhecimento emerge da coleta massiva de dados, padrões estatísticos e processamento computacional. | Pode contribuir para revelar desigualdades quando incorpora análise crítica de vieses e contexto social. | Frequentemente assume dados como objetivos, ignora conhecimentos qualitativos e pode reproduzir vieses estruturais. A epistemologia feminista questiona justamente quem produz os dados, para quem e com quais consequências. |
Fonte: Elaborada pelas Autoras.
Como perspectivas futuras, sugere-se a aplicação da Cartografia do Cuidado em outros contextos comunitários, bem como sua adaptação para diferentes escalas territoriais e formatos de participação. Novos estudos também podem investigar como o framework de autogestão territorial evolui ao longo do tempo e de que maneira contribui para processos permanentes de governança colaborativa. Ao longo da disciplina, o desenvolvimento desta proposta permitiu compreender que a escolha de uma epistemologia ultrapassa a definição de referências teóricas e influencia diretamente a forma de formular problemas, construir métodos e compreender o papel do designer. A epistemologia feminista mostrou-se especialmente relevante por reconhecer o conhecimento como uma construção relacional, situada e comprometida com a valorização de experiências historicamente invisibilizadas. A Cartografia do Cuidado constitui uma proposta de mediação territorial que compreende o território como um espaço vivo, continuamente produzido pelas relações estabelecidas entre aqueles que o habitam. Sua principal contribuição consiste em demonstrar que fortalecer um território passa, antes de tudo, por fortalecer sua capacidade de reconhecer os conhecimentos produzidos por sua própria comunidade.
REFERÊNCIAS
BARAUNA, Debora. Devires do Design Estratégico no paradigma da sustentabilidade e inovação. In: MEYER, Guilherme (Org.). Design Estratégico em Transição. Curitiba: Insight, 2025. p. 50-78.
COSTANZA-CHOCK, Sasha. Design justice: Community-led practices to build the worlds we need. Cambridge: The MIT Press, 2020.
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n. 5, p. 7-41, 1995.
HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021.
KERN, Leslie. Cidade Feminista: a luta pelo espaço em um mundo desenhado por homens. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2021.
RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
NOTA FINAL:
Programa: PPGDesign | Unisinos
Disciplina: Métodos Avançados de Pesquisa em Design
Briefing: Território do Samba de Porto Alegre/RS
Atividade: 6 Chapéus Epistemológicos e a Pesquisa em Design Estratégico
Professores: Dra. Debora Barauna e Dr. Tiago Ricciardi Correa Lopes
Semestre: 2026-1











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