Trilogia "as coisas que sou"
- Víctor Geuer
- 8 de dez. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 17 de dez. de 2020
"As coisas que sou" foi como resolvi chamar o conjunto de três protótipos audiovisuais desenvolvidos em 2020/2 para a disciplina de Experimentação em Design Estratégico do curso de mestrado em Design da Universidade do Vale do Rio do Sinos (UNISINOS). Os vídeos foram desenvolvidos em diálogo com a bibliografia sugerida pelos professores como uma maneira experimental de provocar e aprofundar reflexões a cerca dos fundamentos teórico-conceituais da disciplina. Os meios utilizados para a produção dos vídeos-protótipos foram: um celular Samsung do modelo Galaxy A30 para a captação de imagens e sons e um aplicativo de edição de vídeo chamado Inshot. Os elementos de composição e linguagens usados foram o enquadramento, reflexos e espelhamentos, música de fundo e narração.
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Protótipo I: Breve banho de sol para aquecer a solidão
Texto: A Experimentação como Espaço Ambivalente de Antecipação e Proposição de Controvérsias (MEYER, 2018).
Relato experimental:
Em meio ao isolamento e a solidão me vi cercado por não humanos. Cercado me permiti um breve instante de riso e reflexão misturando Flusser e Drummond: No meio do caminho tinham objetos, tinham objetos no meio do caminho... A objeção das coisas frente a meu caminhar expunha, assim, em tom de paródia e revelação, as múltiplas relações que ligavam pessoas e coisas, sujeitos e objetos. Concluí então que não eram as coisas que me serviam, mas eu que servia a elas. Em seu delírio de forma e função os objetos eram imperativos: Sala de Estar, Área de Serviço, Máquina de Lavar. Não deixavam espaço para o indefinido, o criativo, a diversão. No entanto, retomando Flusser e Drummond, entendi que tudo se resume a mediações, ou seja, a relações de duas mãos. Se por um lado as coisas e objetos conduziam minha ação, por outro cabia a mim reprojetar sua função. A área de serviço? Minha varanda de verão. A velha máquina de lavar? Solista em um dueto com violão. Juntos compomos esse blues que batizei como “breve banho de sol para aquecer a solidão”.
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Protóti II - Manual do Usuário: auto-(re)conhecimento-automático
Relato experimental:
As coisas têm coisas a dizer. Por isso, na tentativa de dá-las ouvidos, falo com elas. Falo com as paredes imóveis e com os móveis da sala. Falo com os utensílios e com os eletrodomésticos que habitam a casa. No fundo desconfio que de domesticadas as coisas não têm nada.Um observador incauto, contudo, diria que falo sozinho ou, na melhor das hipóteses, comigo mesmo. Seriam as cosias espelhos? Sim e não. Há quem fale com plantas, há quem fale com gatos. Há até quem fale com Deus. Eu falo com as coisas como se Deus fossem, isto é, prescindindo de respostas para que exista diálogo. Das coisas todas ao me redor, existem as mais intimas como o violão, os livros e, menos clichê talvez, a máquina de lavar LG que de longe é minha preferida. Na tentativa de entendermos um ao outro recorremos ao manual do usuário – uma espécie de livro de autoajuda para humanos disfuncionais. A esse processo terapêutico - espécie de reprogramação comportamental - demos o nome de “auto-(re)conhecimento-automático”.
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Protótipo III - Cuidados Pré-programados
Conceitos extraidos: obscurecimento, caixa-preta, negligência, cuidado
Relato experimental:
Cuidamos das coisas para que elas cuidem de nós ou será o contrário? Passamos séculos acreditando que éramos a causa das coisas, mas agora sabemos que o caso é outro. O fato é que não existem sujeitos sem objetos. Pessoas e coisas estão ontologicamente relacionadas e seus "limites" não são nada mais do que pontos de contato. Por tanto, tudo que sabemos é que é preciso ter cuidado. Não se trata de demonizar as coisas, de denunciar a objetificação do mundo, nem tão pouco a antropomorfização desmedida, mas sim de afirmar que pessoas e cosias só existem em relação. Sabemos que é possível programar as coisas para cuidarem de nós tanto quanto elas podem nos "educar" (outro tipo de programação?) para que cuidemos delas. Logo, a questão urgente passa a ser a seguinte: Quais devem ser os valores que devem guiar as futuras "programações" de cuidado que perpassam as relações entre pessoas e coisas?
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Referências:
Meyer, G. A Experimentação como Espaço Ambivalente de Antecipação e Proposição de Controvérsias. Revista Estudos em Design. Rio de Janeiro: v.26/n.1, p. 29–47. 2018.
Willis, A.-M. (2006). Ontological Designing: laying the ground. Design Philosophy Papers, 4 VN-re (2), 80–98.
Puig de la Bellacasa, M. (2011). Matters of care in technoscience: Assembling neglected things. Social Studies of Science, 41(1), 85–106.
Flusser, Vilém. O mundo codificado – por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: UBU, 2017.
Drummond de Andrade, Carlos. Obra Completa. 2a Ed. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1967. p. 61-62.
Obscurecidos, Funcionários. Manual do usuário - Maquina de Lavar LG WD11WP6. São Paulo, 2017.
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