A estética do cuidado
- Alice Sukiennik
- 23 de set. de 2021
- 2 min de leitura
A partir da leitura do texto "Matters of care in technoscience: Assembling neglected things" iniciei a me questionar como o cuidar afeta a maneira como nós compreendemos os artefatos? Essa pergunta me fez retomar Lipovetsky (2009), e consequentemente o sistema que mais me faz reflexionar, que diz que a moda pode ser encarada como um espelho da sociedade, refletindo desejos, ambições e inquietações de um grupo social. Nessa passagem, o autor concorda com Bellacasa (2011), que nos faz pensar que as coisas não são apenas objetos, mas nós de interesses sociais e políticos.
Nesse sentido, meu protótipo iniciou-se ao rabiscar, sem muita matutação, um blazer. Nos anos 80, existiu a ascensão de um grupo social chamado Yuppies, abreviação de "Young Urban Professional", que definia jovens focados no trabalho e muito competitivos. Nesse contexto, as mulheres aderiram em seu guarda roupa peças de alfaiataria, como o blazer desenhado, para assim, diante de uma grande diferença de tratamento no ambiente corporativo em comparação a presença masculina, elas sentiram inconscientemente ou conscientemente a necessidade de aderir peças fortes e estruturadas como os ternos.
Com isso, e compreendendo pela presente leitura que o cuidado, diferente da preocupação, remete ao afeto, percebemos que por muito tempo tivemos a necessidade de utilizar roupas, assim como os Yuppies, pouco confortáveis e ergonômicas. Ao meu ver, essas roupas, enquanto artefatos, refletem pouco conforto, e consequentemente, pouco cuidado.
Ao seguir a leitura, me questionei como a reconstrução afetiva pode alterar a nossa relação com os objetos. Ainda focando na Moda, lembrei de mais um caso, agora mais recente: em 2020, com a pandemia do Covid-19 e ascensão do trabalho remoto, as pessoas tornaram o seu estilo mais casual, confortável e afetivo. O tricot e o moletom, grandes tendências de produtos de moda, remetem a um abraço, um colo, um edredom, um cuidado. O mundo caótico e estressante, influenciou que diversos mercados se tornassem esteticamente, e consequentemente eticamente, voltados para o cuidado.
Por isso, meu protótipo foi essa construção paralela a leitura a exemplos que remetem ao cuidado enquanto artefatos do vestuário, e assim, uma busca por como a moda evidenciou esteticamente o conforto, o afeto o cuidado.
Criação de protótipo a partir do texto: Puig de la Bellacasa, M. (2011). Matters of care in technoscience: Assembling neglected things. Social Studies of Science, 41(1), 85–106.
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